sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Natal


foto do autor

respiro
este ar frio
e recordo
o calor
no amor
doutros natais
dos meus pais.

o sol ainda brilha
e aos meus olhos
por cada dia
outro calor
no amor 
de quem me quer bem.

FELIZ NATAL
🎆
e
UM BOM ANO NOVO
🌟
PARA celebrar a VIDA

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Uma rosa vermelha




 Tirai os olhos de mim

Senhora

Que eu tal não mereci.


Os olhos pousados em mim

Senhora

São dignos doutro delfim.


Olhai, Senhora, este meu fim

Que olhos de Vós não vi

Quando de Vossos olhos morri.


Agora, dai-me uma rosa vermelha 

Senhora

Pousada em meu frio peito 

Como lábios Vossos colados

No Amor que foi meu leito.


quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

O menino que sonhava mar


desenho lmc


Todas as manhãs, ao ir para a escola, carregava nas mãos uma pedra aquecida na lareira, embrulhada em jornais.
O frio da serra descia em ventos roubados às marés dum mar que longe, só podia advinhar.
O gelo tinha-se formado na boca da lagoa, cheia de água, onde em tempos se tinha extraído barro para olaria.
Ouvia as rãs a coxar numa linguagem que ainda não conhecia, mas julgava ser um chamamento para brincar.
Um dia atreveu-se a pisar a superfície gelada, acreditando na espessura do gelo e no seu leve peso e, passo a passo, foi avançando, até... quando de repente o gelo começou a estalar. Parou subitamente, com medo de se afogar.
Mas o gelo continuava a rachar em veios cada vez mais longos.
Lembrou-se de se baixar e com a pedra na mão, foi batendo naquela camada de gelo para se aperceber da sua consistência e avançar de joelhos, até chegar à margem.
E chegou... 
Agora, ao olhar o mar, lembra-se daquele momento, e como então sonhava aqui chegar.



terça-feira, 24 de novembro de 2020

As palavras secretas do teu nome

foto lmc


Todas as manhãs poisam pássaros
no chão lavado 
dos teus olhos.

Sigo esses momentos 
de alegria,
como se cantassem um poema 
em harmonia.

Já só tenho que aguardar 
outros sinais
para que os dias não sejam iguais.

Não sei o teu nome. 

Não cabe em mim descobri-lo.

Sei que nem todas as palavras 
chegariam 
para o descrever. 

Habita 
no mundo secreto 
do meu mais profundo ser. 

Basta saber que está lá, 
presente,
no encanto de o ter.

domingo, 22 de novembro de 2020

a sombra do destino

Ansel Adams

caminhava

entre sombras e tristeza
apagando-se no sonho
que lhe dera beleza

caminhava

ainda na noite
sua única aliada.

apontou para longe
muito longe
para a sua rectaguarda

e nada

nada via 
a quem pudesse chamar
"minha amada".

caminhava

ainda se lembrava
como os anos eram longos
e doce fora o dia

ainda 
aquele dia
onde o sonho nascia

e agora
dentro de si 
morria.

caminhava

ainda 
pensando numa qualquer
alvorada

caminhava

sozinho 
o caminho no carinho 
de quem ainda acreditava

caminhava
ainda...
nessa estranha estrada.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

amar, amar


amar assim eternamente
é estar presente
no dia e noite para sempre

amor é isso

mesmo que o nosso amor
seja repente
há-de o tempo acalentar a gente

e estar assim 

dar todo o tempo 
que o nosso tempo 
é todo entregue a quem se sente.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

dos lábios

Foto: Galyna Andrushko / Shutterstock.com

prisões de porta aberta
e muros altos 
derrubados

 

e os olhares

apagados

das paixões

 

é mais do que

visões

mais que as monções

 

meu rio de saudade

antiga

desprendida

 

ainda mais que água

derretida

rasto de sede sentida

 

aos lábios gretados

 

em fim de deserto

do meu mais longo sonho

sentido

 

e aquele prazer

tão esquecido

agora lento e desmerecido

 

ainda assim


um eterno sabor

dos teus lábios

em flor.

terça-feira, 3 de novembro de 2020

tatuagem


foto lmc

Nas suas mãos colhia 
ventos 
para deles harmonizar 
as velas quebradas pela 
solidão. 

Num chão de mar
repousava o olhar tão
cansada 
de tempestades.

Esperava 
acalmar
e liberta-se da angústia 
latente.

Nos seus dias mais
cinzentos
era o som das ondas a trazer-lhe
bem-estar.

E foi numa tarde de luz 
clara 
que o sol lhe marcou
o corpo
qual tatuagem em pele 
adormecida. 

Ainda 
teve a vaga sensação de uma breve 
brisa
a refrescar-lhe as 
ideias. 

Quando voltou a casa
marcou aquele dia no calendário 
e nunca mais teve 
medo 
de se perder na escuridão.



segunda-feira, 26 de outubro de 2020

a viagem



Mais importante que a chegada
é a viagem.
Por ela caminham os sonhos
que à partida eram desejos.

Faz-se o caminho sem reter o olhar
dum qualquer lugar
só com o imaginário no destino final.

Assim,
perde-se o momento irrepetível
perde-se o tempo na vontade de
rápidamente passar e, por fim, chegar.

fruto-semente



maturado fruto
caído
ao pé do tronco
crescido
e o aroma da terra molhada.

e a semente
será
gestação
na doçura do ventre.

domingo, 25 de outubro de 2020

As plantas







Quando chegar a primavera outras flores nascerão. Fazem isso á cinco milhões de anos. E sem saírem do mesmo lugar.
Quando vier a primavera penso ainda cá andar. A minha espécie só existe à trezentos mil anos. E movo-me à procura de bem-estar.
Quando vier a primavera irei ver o verde das plantas e a sua sabedoria. Maior que a minha. 
Quando chegar a primavera as nuvens brancas e os oceanos azuis farão parte da vida das plantas. 
Sem plantas, eu jamais teria vida. Mas para elas, a minha espécie só prejudicará a vida delas.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

perdão


Lúcio Fontana

Poderá a vida ser repetida
onde tanto de nosso foi vivido
simplesmente adormecida
num amor já tão crescido?

Poderá ser nosso outro começo
para desta vez haver algo diferente
e das nossas sinas um outro terço
rezado em dias que mais mereço?

Esse perdão que queria adquirir
peço-te agora por não saber
se outro tempo a nós há-de vir.

Deixa-me dizer-te o quanto de meu
este remorso tem razão de ser
sabendo desse mal que me perdeu.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Baile da solidão

 

 



[num tempo pré-pandémico, uma estória verdadeira_ reeditado]

 

Eh, fadista deste fado de bela vista

Tens a glória deste momento na velha pista

E no andar e no falar, estás p’ra amar

És um ‘pintas’ no gesto e no trajar,

Em boas fintas rodeias tudo com o olhar


Sentes o corpo em palavras a sussurrar.

Eh, fadista marialva feito Midas

Faroleias as viúvas mais queridas

Cantas estrofes de tabernas e cafés

Conversas de tretas e parlapiés.

E a troco de nada debitas lamirés.


Pois é, fazes-te à vida, alma ferida.

Pesam-te os anos e os enganos,

E a brilhantina escorre os cabelos

Já grisalhos, mas bom de vê-los

Calças de ‘jeanes’, camisa às cores

Dum amarelo berrante de dores

Um lenço preto escorrido e com flores

Sapatos rasos e deslizantes de alto brilho

E no pescoço, pouco escondido, dourado fio

Como o relógio, a bracelete e a pulseira

Dão à figura um marialva de cabeleira.


Fins-de-semana nas danças de salão

Espalhadas um pouco por toda a parte

Esse condão ‘engatatão´ da tua arte

Encobrindo palidamente a solidão.


Solto o salão aí vais tu dando uma mão

Lanças amores, pedes favores, apertas dores

Puxas pró tango várias estampas

De outros tempos e outras pampas

Ora dançantes, ora sentadas e alinhadas

O rouge intenso e báton vivo põe-nas coradas.


És bailarino, exímio, na escola de outras eras

Onde as horas não eram de tantas esperas

Ficou-te o ‘bicho’ enraizado dum pé de dança

Em qualquer baile, ou mera festa, desde criança


Mas esqueceste que tudo é feito de mudança

E agora trazes nos olhos a já pouca esperança.


Dás a perninha em qualquer baile

Rasgando o espaço desse cansaço

Saltas sem rede e avanças a cada passo

És uma estrada escura sem qualquer raill .


Nos intervalos bebes geladas umas ‘begecas’

E até pensas que vai ser fácil dar umas ‘quecas’

Lembras as noites e os bailaricos de S. João

O vinho verde a madurar sardinha e pão.


As matinés, já não em boites ou cabarés, 

São estas voltas uma constante troca de pés.

Repimpas firme uma silhueta de juventude

Lembrando os verdes anos muito amiúde


Na música ao vivo, soalho antigo, e já comido

E o jantar fica perdido e ouvido algo entupido.

Lá dás o corpo ao manifesto e sem protesto

És suave sombra a envolver o corpo delas

Mas ao deitar é que são elas.

Perdes as velas.

Dói-te a alma, os cansados pés e as costelas

Vês-te em alto-mar, num barco a naufragar

Sempre picado, sem sentinelas p’ra te acordar

Os pesadelos, tristes flagelos, dormem contigo

Feito peão deste destino bem à medida da solidão.


E, mais uma vez, dormes sozinho, como um mendigo …

como um rio

 

Nos rios doces dos teus beijos

Há desejos

E as águas límpidas correm serenas

No meu peito.

Já não sei onde os pássaros

Vão poisar.

Talvez o seu ninho tenham feito

E de la' vejam o meu mundo

A seu jeito.

Mas eu sei que tanto voo

Tem um fim.

Tanto sangue a correr dentro

De mim

Há-de ser um caminho

Ao descanso no teu ninho. 

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

o anzol

Foi total o espanto encontrado nos olhos dos peixes e das suas bocas famintas. Tinha sido decretada a obrigação de descarregarem uma aplicação que, ate' agora era oferecida, para quem a quisesse usar. Parecia um isco para juntar o cardume. Mas, agora, como iriam comer sem evitar tão falsa refeição e sem denunciar quantos eram e onde cada um se localizava? 

-"Simples", disse o maioral lá do sítio, reunido que fora uma assembleia para discutir tal determinação:

- " Vamos todos nadar 'a volta do anzol até esgotar a energia e provocar um remoinho tão grande que há-de aparecer alguém para tentar compreender esta confusão. Depois atiramos-lhe com o anzol. Talvez tenhamos a sorte de comer!"





terça-feira, 13 de outubro de 2020

Arrábida_Portugal












 

o amor

o sentido da vida
e o marejar
em tanto mar...

o despertar
a um olhar
a onda que vem
a onda que se tem.

o amor
num mundo de desdém...

e o cansaço
tanto, o cansaço
que asfixia
no desejado abraço...

mas o sonho
é isso
o sorriso
no rosto duma criança.

além do mais
em recompensa
fica a esperança
ou certeza
num amanhã que
fará diferença
pelo bater da poesia.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

das margens da solidão

tinha as distâncias no sorriso apagado
e o cigarro descaído no canto da boca.

andava de verbo em verbo, de chapéu na mão
'a espera da chuva para construir uma canção.
 
todos os mares reflectiam-se no olhar opaco
e a voz remendava-se de farrapos velhos.

sentou-se na margem do rio, de costas voltadas 
ao mundo, como barco encalhado. 

um louva-a-deus poisado sobre folha a flutuar
rezava aos peixes que não queriam nadar.

cansado da solidão, mergulhou nas águas
para ouvir melhor o inédito sermão.

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

fragmentos

"e para ser feliz nada melhor que o esquecimento"


fragmentos
parcos e dispersos a
rodearem os velhos caminhos e a
memória
dos nomes de quem já nem nome tem
diluída
no pó dos carinhos.

só as folhas secas
e os arbustos perdidos
se lembram dos ventos
em barreiras de esquecimento.

rostos
lugares, sorrisos
desvanecem-se e
vão
para além da vontade
na recordação
de quem se quer lembrar
em vão.

e estes momentos
lúcidos
são dor e sofrimento.


quinta-feira, 24 de setembro de 2020

 

No olhar onde moras

passam os caminhos

de todos os tempos.

 

Dos meus sentidos

só lamento as horas

perdidas

a ler mapas antigos.

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

a flor

eu vi o sol brilhante do teu olhar e,
por mais que olhasse, dele nunca me ceguei.


neste universo, uma galáxia e
nesta galáxia, um sol e
do sol, um pequeno planeta
azul de tanto mar e
nesse mar, uma ilha e
nessa ilha, uma flor
tão distinta e tão formosa
que em todo o universo não tem igual.

uma vida no universo da flor.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

minha voz corrente

Último  Canto

Um dia, meu irmão, hei-de
Homenagear-te
Hoje não
Hoje fica o silêncio da tua voz
A fazer-me companhia 
Hoje ainda não tenho palavras
Para  descrever tão triste emoção.
Recordo-te na primeira fila
Meu arrepio de pele
A cantares na "Expo 98"
Tanto tempo…
Quando o teu tempo
Era outro
Que hoje termina.
Só isso me vem 'a recordação.
LMC


4 de janeiro de 1954 - 9 de agosto de 2020

[este terá sido o seu Último Canto ]