quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

A mensagem

(Conto que pode ser de Natal, ou quando o homem quiser...)

As persianas brancas, corridas, das varandas, não deixavam ver se a casa era habitada.

Há meses que se mantinham assim, fechadas.

Nem uma nesga de luz por elas entrava ou escapava.

Era um segundo andar dum prédio vermelho e branco, com uma águia como brasão. Um verdadeiro palácio real. Chamavam-lhe:  "A  Catedral".

Naquela noite, bem tentou entrar pela chaminé mas, tal era a confusão de tubos confluentes, que não conseguiu determinar com exactidão qual era o pretendido.

Por isso, desceu ao patamar de entrada e esperou que alguém abrisse a porta para, assim, entrar. Como companhia, uma velha estátua a querê-lo desafiar.

Não queria tocar à campainha para não desvendar a sua identidade e fazer cair a surpresa de tal visita.

Era já muito tarde. A noite aproxima-se da madrugada, ou esta daquela. Tinha de se despachar sem que o sol o apanhasse. Por fim, houve um inquilino de horas tardias que lá acabou por aparecer. Pediu-lhe para com ele entrar. E assim fez.

Chegado ao patamar do segundo andar,
introduziu por debaixo da porta o pequeno subscrito, que trazia entre outros numa pasta, com a indicação de morada correspondente. Esta missão tinha sido cumprida.

Então, era a seguinte, além do endereço, a nota escrita à mão, por linhas tortas como só deus sabia:

"Do Menino Jesus

             Para JJ, o menino do pedido:

Devolvo-te esta carta, sem atender ao pedido, por esta se ter perdido. (Talvez culpa dos CTT's)

Sei que já és crescido. E todo o tempo demorado - anos passados - foi para ti desilusão e descrença.

Já em mim não acreditas e o sonho de menino, também se perdeu, ou foi por ti destruído. (Aqui, Jesus, não tem certezas. Ficará para mais tarde avaliar)

Teu sempre Menino.

ass).….. J.C."

DESEJO-VOS

NATAL FELIZ

ANO NOVO PRÓSPERO

🙏

BOAS FESTAS 

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

falar de amor...

se alguma coisa permanecer
para além de mim
que seja aquela flor que me quis
aquela flor que não cultivada em jardim
foi acarinhada por mim.

ou aquele verso
que um dia tentei escrever para ti
- a falar de ti, a falar para ti -
sem contúdo ter o tempo de o ser
para to dizer.

ou, ainda
que seja um pequeno sopro de ar
ou brisa nascida no teu mar.

se alguma coisa permanecer
para além de mim
que seja memória para nela viver.

fuga

a vida é uma cabra 
a roer madrugadas
quando o rio 
enlouquece 
por falta de oxigénio.

desce a cidade 
sobre escombros 
de solidão
onde a noite 
fria 
não foi mais 
que uma prisão.

e tu caminhas
entre estrelas 
como se a luz 
distante 
te lembrasse 
que há um futuro 
inatingível
perdido nos bolsos 
vazios.

às tuas mãos
prendem-se memórias 
dum tempo esquecido e 
dos calos antigos
as gretas são a tua estória
feita de angústia
porque a noite 
ao teu encontro
também caminha
e tu não sabes 
onde te leva 
tão escuro encontro.

mas tu caminhas
ainda
por sobre pedras
por entre feras
que ameaçam
que ferem
se não correres
para fora delas.

são tão estreitas 
as tuas margens
que o rio 
que sonhas ser
corre na violência 
de alma negra
dum precipício
a querer te ter.

e tu caminhas
mesmo sabendo do 
não-retorno
na mesma estrada 
onde nasceste
e nela cresceste
e só ela conheceste.

caminhas ou é a estrada
que te caminha?



sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

distâncias

1.
esta noite
são mil e uma
as estrelas
a prenderem-se
ao olhar.

amanhã 
quando o dia acordar
uma só estrela
irradiará outra luz
na vida a palpitar.


2.
pudesse a noite ser dia
e varreria a escuridão
tão necessária
ao silêncio dos olhos.

pudesse o dia ser noite
e confundiria este pássaro
que, de cabeça sob a asa
sonha a madrugada.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

ai, sonho

branco sonho 
que de meu
de mim saiu 
e se perdeu.

asas livres, 
verdes prados
cavalo à solta, 
louca jornada
sem rédeas, 
sem lança, 
ou espada
tempos dourados, 
noutros fados.

jamais se prendeu
recorrente sonho, 
que já foi meu.

sinto-o agora 
longe, distante
como se o vento o apagasse
escrito, 
que foi, 
de areia e sal
numa praia 
que esconde todo o nosso mal.

acredito que voltará
um dia... reviverá.


olharás meus olhos
e a tua vida neles verás.

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

de ti


foto do autor

de ti
levarei as longas madrugadas
e as noites contigo passadas.

levarei o sol das manhãs
e o canto da tua voz.

levarei as lágrimas caídas
em tardes desprovidas.

de ti
levaria todas as nascentes
puras e inocentes
no desejo da sede
que o olhar longe mede.

de ti
levaria essa água cristalina
a correr pela boca do Poema.

a ti
se não bastasse
e mesmo que a noite se calasse
voltaria à luz do teu olhar
num regresso sem parar.