domingo, 17 de novembro de 2019

A Raiz


foto sofia


[Curto conto de Natal]

Desprevenido, o viajante calcorreia os caminhos, sem adivinhar tão próximos perigos. Toda a sua vontade se diluiu nos passos indecisos, trôpegos, com que se abeira dos velhos abismos. 

Não sabe a idade das pedras, nem o nome das flores. Só sabe que caminha com pés de chumbo e alma vazia, ambos arrastados sobre a poeira, qual nevoeiro a esconder uma vida, sem um projecto, uma centelha de esperança. Tem os olhos injectados do vinho da manhã e a sonolência dos pensamentos aquecidos pelo sol impiedoso. Pequenas gotas de suor dão-lhe o sabor da terra e do mar distante, que um dia quis olhar e nele se afundar. 

Sobe a montanha para deixar para trás os vales semeados de sonhos, que foram seus, pequenos grãos espalhados ao longo dos anos, sem germinação que lhe desse ânimo. Já não tem perdão o tempo perdido e sem lhe poder deitar a mão. 

Eis quando, sem por nada dar, tropeça numa velha raiz atravessada no caminho e cai desamparado. Pertencia a uma velha árvore, tão esquecida, como abandonada, como se o tempo lhe tivesse marcado o desprendimento e, assim, tentasse prender-se ao solo. 

E o homem, caído sobre o caminho, de costas assentes, olhou pela primeira vez para aquela estranha árvore e, numa voz extraída dos confins da sua já longa vida, ouviu-a consigo falar: 

- Não reparas no que pisas? Olha que eu, não podendo daqui sair, vou mais longe do que tu, na vontade de existir! 

Em seguida, dos seus extensos braços pendentes, sentiu-se levantado do chão e ao seu tronco encostado. Foi como se um carinhoso abraço lhe prendesse a respiração. Uma imensa paz interior invadiu-lhe o coração, ao mesmo tempo que uma nova alegria de viver se apoderava do seu corpo e da sua alma. Aquele velho pinheiro era diferente, era pura energia e compaixão. 

Então, disse-lhe: 

- Tens razão. Em toda a minha vida nunca vi uma tão sábia e bela árvore de Natal. Deste-me a melhor prenda que um amigo pode dar ao seu irmão: deste-me a mão!

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

tenho dias...


tenho dias
onde toda a escuridão
não apaga a vela
na minha mão.
tenho dias
onde a esmola dada
não aguarda gratidão.
tenho dias
onde um sorriso aberto
é quase abraço de irmão.
tenho dias
onde o lado oculto da lua
não me causa aflição.
tenho dias
onde o ladrar dum cão
não é mais que solidão.
tenho dias
onde percorro as ruas
para que não fiquem nuas.
tenho dias
onde acordo a sonhar
de te poder contemplar.
tenho dias
em que os meus dias
são sim, outros... não.


terça-feira, 8 de outubro de 2019

Tão longe e tão perto

Nem uma só lágrima, um sorriso, um canto; nem
um só minuto de descanso. A tua ausência é tudo
isto e muito mais, mais o espanto de te ter sem te
ver; sem te ouvir, mas saber dentro de mim a tua
voz a cantar -  um poema como se fosse simbiose
entre alegria e tristeza -, esse amor.

Ai, minha amiga, meu amor
Minha alegria
Minha dor
Tão longe e tão perto
Este pranto, esta mágoa, esta saudade
Dentro do vazio onde tudo cabe:
Tudo!
Mesmo o tempo, finitude e momento.  
Mas nunca é de mais por ti esperar...!

08/10/2019

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

degelo

imagem net


que manto é esse amigo
que de tão vasto
cobre mares
cobre montanhas?

oiço vozes dos confins das águas
sereias de sal
a derreterem glaciares.

e da terra
gélidas esperanças
de um dia serem girassóis
em latitudes habituais.

domingo, 8 de setembro de 2019

7.set.2019

lmc



espera-se a beleza na busca
incessante
de cada olhar e
o poema a cada momento
surge
sem ter de o procurar.

prisioneiro fica
nesta tela sem palavras
- o tempo as há-de encontrar...!

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

...

que título te hei-de dar?

nunca saberás o quanto te amei. no 
princípio era uma só gota no caminho de 
teus pés quase doçura de mel a tocar 
lábios cerrados ao desejo por inventar.

nem as casas habitavam o nosso amor nem
os pássaros nos roubavam o voar nem
o sol brilhava na ausência das sombras nem
os céus abertos inquiriam oráculos nem
o nosso destino havia sido inscrito nas areias
pisadas. 

chegavas... e todos os sinos tocavam as
primaveras e os anjos clamavam atenções. depois...
foi-se alastrando em marés de conhecimento. nadamos
até ao infinito das vontades e deste livro escrito
poisado no teu regaço nada mais há que te possa
acrescentar a não ser sentar-me a teu lado.

fim

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

"Também tu, Brutus?"


Aos motoristas de “pesados”- Um drama em dois actos:

(a cultura liberta o que o trabalho aprisiona.)

Acto I - A Noite

Apresa-te ao volante, meu amor
Como se o circo entre mãos
Fosse vida
Essa tão escassa certeza
Com que me tens.

Dorme só
Pois do meu leito
Partilho a tua ausência
E o vazio e’ meu destino
E martírio.

Quando teus olhos
Ficarem presos ‘a escuridão
Numa qualquer estrada
A aproximar-te
Pensa nos rebentos
Que aguardam o crescimento.

Não te deixes adormecer
Pelo cansaço de não te ver
E pela rotina
Nas horas esquecidas:
 Labutas mal retribuídas.

E quando tiveres fome
Pára por momentos
Pensa em mim
Como se eu fosse a fonte
Com que te hás-de reanimar.

O teu patrão não e’ aquele
Que te solda a escravidão.
E’ aquele, que acima dele
E’ dono da economia e da Nação.

E’ ele que te trai
Sem dar a cara
E sem se ver a sua mão.  

Acto II – As Sete Irmãs

O cerco delineado foi claro:
- Não haverá lugar ‘a inocência
Pois neste Reino tudo ficara’
Dentro do eixo, neste Poder
Que manipulo e não deixo
Que outro qualquer
Tenha a veleidade de pensar
A liberdade
E muito menos de per se
Conquistar outra vontade.
Dixit

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Rotas



Rotas

Folha caída ao vento
Dispersa
Restolho de seara colhida
Dum Fogo Antigo
Activo
Ainda E
Quase esquecido.

Charneca estimulada
No canto
Ou no choro da criança
Guardado no
Berço
Raiz e caule
Do grão - que se fez pão –
Nos olhos
Da fome germinados
Lágrima
Fundida em ouro
A embalar a tristeza
Plantada
No dia de todos os ninhos.

E a águia. Mãe
Dulcíssima
Em voos de colisão
Contra máquinas
Duma estranha civilização.

(Pássaros de Fogo)

sábado, 6 de julho de 2019

Estuário



Nesta manhã. Com o estuário a reflectir. A luz
Cintilante das águas. Há um destino na Foz. A
Deslizar. Sem pressa de chegar.

E das serras e dos vales, dos rios e dos mares
E de todas as margens por onde o olhar se expande
E os horizontes se curvam. E dos sonhos por
Dentro. E voos na aprendizagem dos ninhos. E
Da brisa. A refrescar paixões. Respira-se
A vida, maturado fruto, que o ventre abriga.
E o colo aconchega. Como se os cheiros da dor
Fossem partos de saudade. Esquecidos.
No desprendimento das mães. Em novas gestações.
(reeditado)

quinta-feira, 4 de julho de 2019

flor do deserto

Oh quanto lamento
há no meu triste, sombrio e vazio olhar
de não te ver mais cedo de mim aproximar.

Aguardo esse passo de andorinha
no arrastar do sonho, ao andar e
quando chegar
todo o meu ser se há-de iluminar.