sábado, 11 de agosto de 2018

assassinos

algures na áfrica do sul
num dia qualquer
a uma hora de sol
uma, duas, três, cinco
balas assassinas
penetram a carne
e a savana ecoa
estremece
aos olhos do assassino.

cai lentamente
o rinoceronte
pela cobiça dum dente.

malditos, que tanto mal fazem
neste mundo.

e ao ver este animal
dum porte esbelto
dobrar os joelhos e morrer
já não sei como poderei olhar
um ser humano e nele reconhecer a inocência ou a maldade.

lm_11.ago.2018


domingo, 5 de agosto de 2018

canícula


as noites quentes do desassossego
entravam pelos olhos
pesados das horas
as cegonhas tinham partido
na busca de estrelas caídas
e o esquecimento dos caminhos perdia-se
no emaranhado dos sonhos
os pontos cardeais eram todos iguais.
lá longe
o sul pedia insistente a pureza das águas
onde nascentes molhassem
os pés descalços da terra.
já as rosas eram figuras de porcelana
em jarras temperadas no tempo
e corriam poeiras em voos rastejantes
como se não encontrassem lugar onde poisar
por vezes sangravam:
lembravam os vivos da carne e os ossos cansados
os músculos definhados.
os cheiros de suor putrefacto varria o ar em brisas doidas
como se quisessem cantar
e o mar reclamava naufrágios
com que pudesse brincar.
a loucura era tão suave que por ela não se dava
pairava
(como esse pó que não encontrava lugar)
pressentia-a.
as pálpebras desciam e subiam ao som interior do pensamento
e as marés deixavam rastos de luas prateadas
em espelhos d'alma.
por vezes uma ténue luz espreitava
entre buracos de assombração
e as sombras esqueciam a orientação da sua razão.
caiam aos pés da cama com medo da solidão.
pendores e nichos formavam paredes erguidas
em cores ocultas pela dimensão
os peixes nadavam em estáticos quadros
assim como cavalos corriam em prados planos de chão
doidos varridos com relinchos
que estremeciam o coração.
tudo era fantasmagórico
e a casa era louca
mais louca que a falta da razão
virada do avesso
com janelas no tecto
e cortinados esquecidos a servirem
tapetes.
o receio de espreitar para fora
tomava forma
um mundo ao contrário esperava
a difícil compreensão...
entrei numa porta entreaberta para o vazio
onde um céu pintado fazia do quadro
uma apelativa visão
uma chamada em salto
em asas de ilusão.
aí acordei e dei
por mim sem saber
se saí ou entrei...

lm_05.ago.2018


sexta-feira, 13 de julho de 2018

no teu poema

[...] É nos olhos dos mendigos
que a noite se prolonga por mais tempo." 
in: "Marginalidade", Poemas Escolhidos 1990-2011, Graça Pires.

(Nota: Do Poema, acima referido, destaquei este último verso.
E só ele - quanto a mendigos -,  foi inspiração.)

No teu poema há uma dor que não se alcança
Um qualquer sinal quase de esperança
Uma mortalha que cobre sonhos de quem falha
Há um verso que aflora o sentido pela vida fora
Como se uma linha prendesse  a escassa hora
No teu poema há emoção de quem olha
A solidão posta à mesa e cama feita de chão
No teu poema existe o vazio feito de noite
Sem horas que marquem destinos
e mãos caídas de carinhos

No teu poema, amiga, há tudo o mais
que quero ver e não é demais.

lm_13.jul.2018

......

*ainda a noite no olhar*

nuvens escuras no olhar
tapam sonhos 
com mantos de orvalho
cabelos sem luz 
e brilho perdido. 

servem-se sorrisos 
apagados
de quem  segue apressada 
dobrando esquinas 
esquecendo visões
perdendo pausas
com que se aliviam dores.

são passeios com gente 
atravessando manhãs
cruzando ruas
em esperanças vãs.

e a noite já foi
só uma lembrança
vaga
esquecida
ao acordar da casa: 
a rua
fria e nua. 

há um vazio nos ossos
tristeza nas mãos
crispadas
abandonadas
à crónica solidão. 

nada mais importa 
além do respirar
sem qualquer esforço 
de querer pensar. 

todos os passos 
são do mesmo lugar:
andam parados
a arrastar horas
a pisar chão 
nos raros relógios
da emoção.

todo o passado é escrito 
numa simples folha
amarrotada
quase esquecida 
pelas sujas mãos 
e serve de lenço
guardado tesouro
com gestos escondidos
nos bolsos caídos
vazios 
de sol e luar.

aos ventos serão
varas dobradas 
vagos pensamentos
memória presa
o corpo dorido
e alma ferida.

não vêem televisão
nem estrelas
nem políticos
nem um simples discurso
a prometer 
um qualquer milhão.

não levantam os olhos 
agarrados ao chão.

tudo se resume a:
uma sopa
uma arcada
uma cama de pedra
e um cobertor de cartão.

são os mendigos da cidade 
entregues a si próprios
e a alguma caridade.

lm_02.ago.2018

domingo, 8 de julho de 2018

sem título


Tive um sonho e matei-o.

Pensei mudar a Natureza
Salvar, interferir, mudar
Mas a Vida é tão frágil
E nada a pode determinar.

Nas minhas mãos tive o sonho
E ele doeu. Dói.

Tão cedo não quero mais falar
De crias caídas de ninhos
De pássaros que não aprenderam a voar
Ou do sentido a que tudo isto pode levar.

Só me resta aceitar...

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Canto do meu canto

Dum único canto
Faço minha a voz
Encanto o teu leito
De ninho perfeito.

Percorrer-te o corpo
Como se minhas mãos
Fossem andorinhas
Em asas de voo
Acariciando o ar
E falassem...
Deste navegar.

Curvo os longos espaços
Nos sons interiores
Com que desenho pautas
Como se fossem flores.

E é nesse jardim que
Me faço de amores
Planto presença
Como se fossem ninhos
Na criação de mim.

Toco as manhãs
Sem saber os dias
E, entre silêncios,
Oiço rufar tambores
Que marcam ritmos
No remar do tempo
Por rios sem dores.

E assim eu canto
Sem saber o quanto
Meu canto é de ti.

lm_ 04.jul.2018