quinta-feira, 19 de abril de 2018

sem título

porque te olho nesse vagar
das horas escondidas?
porque vens embarcada nas
palavras 
em vagas de luares?

já não há sombras quando me dizes "temos de falar".
oiço-te com búzios nos ouvidos
e sonhos no bolso.

deste teu mar, sem fim
acaba de chegar a carta inacabada
sem tempo, sem destino, sem sequer  um adeus
como se o amor fosse uma praia deserta à espera do furacão
e todas as árvores se dobrassem
fustigadas 
ao sabor das causas perdidas.

deixa-me o chamamento 
que gostaria de te ler
ou dos teus desejos um balde de areia
para castelos meus poderes pisar.

brinco as sílabas no arranjo duma criança
para das formas fazer sentido
e construir com esse papel
um barco a navegar 
inclinado ao sabor dos ventos
no lago que o há-de afundar.

já não quero embarcar.

toda essa viagem seria um destino
mais sombrio que as profundezas do mar.
todas as emoções seriam gelo derretido nas calotes polares.

nada sentiria, nem mesmo o meu próprio respirar.

manda-me outra carta para eu aprender-te a amar...

LM_19.abr.2018

sábado, 14 de abril de 2018

eram quatro da madrugada


enquanto os trovões
ecoavam, em damasco,
num subúrbio distante
um galo cantava, no meio
da noite,
no meio do nada.

que canção é esta
e de que falava 
quem nada sabe
de mísseis em alvorada?

LM_14.abr.2018

terça-feira, 3 de abril de 2018

evasões

(para ti, meu amor:)
foto: dn

inventámos uma ilha
quase deserta
quase perdida
onde só os pássaros
renovam esperanças
neste mar que nos rodeia.
vivemos uma vida
para nós pequena epopeia
quase fuga
quase isolada das demais
ilhas
nas emoções contidas.
imaginamos um barco ancorado
à espera da brisa
que da vontade faça voo
e nosso suspiro seja alento
doutros mundos retidos
no pensamento.
esmorece o dia
e a noite cala o sorriso
desta evasão.
amanhã acordaremos
lá longe
desta ilha que em nós habita
com a liberdade no peito
e horizontes no olhar
na (re)escolha de aqui ficar.
LM_03.abr.2018


quarta-feira, 21 de março de 2018

dia da poesia

resolvi escrever um poema
neste dia da poesia
sem saber muito bem
de que falaria
o que é poesia e o que ela contém.

pois então...

o sol brilha como em qualquer outro dia
as noites são frias quando vividas em agonia
os rios continuam a correr p'ro mar
constroem-se mais armas para matar
rouba-se aos povos o que seria essencial para viverem e terem pão
o planeta sofre cada vez mais com a pegada humana
o amor já não é só uma ilha e uma cabana
caiem bombas na síria como poderão cair amanhã noutra região.

e pronto..
será assim a poesia?

sei isso sim que
- a primavera (árabe) é uma quimera!

LM_21.mar.2018

domingo, 18 de março de 2018

silêncio e tanto mais

diz-me, silêncio
quanto de ruído é teu desejo
para dele saíres no que vejo

no riso solto duma criança
a brincar à cabra-cega

na voz doce duma canção
com o dedilhar duma guitarra

no rosto do vento que passa
como carícia que se amarra

nas ondas do mar o rolar
dos sonhos a desbravarem

nos bosques densos o chilrear
dos pássaros a procriarem

mas se isso não chegar
tenho mais uma coisa macia
p'ra te enunciar
a pura poesia 
que nisto tudo podes encontrar

LM_18.mar.2018