domingo, 15 de outubro de 2017

morte do rio tejo



seguem os rios sinuosos 
os seus destinos
impertubáveis aos desejos
dos barcos encalhados.

destes
já só o chão é sonho e mar.

mas para os peixes a boiar
nem sonhos, nem desejos:
já a poluição lhes matou o ar.

domingo, 8 de outubro de 2017

1...5


1.- 

já não dói
amor.

esquece
por favor
ou leva aos lábios uma prece
como quem já não padece
e agradece
o momento 
sem sofrimento
qual saciada flor 
que ama com amor.

já não é tua aquela dor
que ouvia em clamor
o que passou...
passou.

aqueles dias sombrios
afogaram-se entre rios
e todas as lágrimas
que algum dia
choradas 
alguém teria
já só são
memórias
na escuridão
inglórias.

deixa p'ra lá
essa tristeza 
que não dá.

abre o coração
e terás à mão
o amor
sem qualquer dor.

o amanhã é já hoje
é futuro que não foge
aos olhos de quem se tem
como outros 
de mais ninguém.

2.-

indiferença

o que dói 
é o olhar ausente
de quem passa
entre a gente
sem calcular
que em qualquer praça
podes ser esse alguém
no seu lugar.

3.-

o que dói 
é a vacuidade da vida:
estar só
sem amigos
(ou inimigos)
e uma fria refeição servida.

4.-

nada é nosso
nem as pedras das serras
nem as terras cultivadas
nem as árvores já criadas
nem as casas abandonadas
nem os caminhos esquecidos
nem os rios poluídos
nem o ar, nem o mar
nem o céu, sem esperar
a morte que há-de chegar.

5.-

"agora tenho medo.
antes, enfrentava o fogo
a querer-me roubar o que tinha.
agora, cansada e sem forças, fujo.
e já só me resta esta velha vida."


domingo, 1 de outubro de 2017

autodeterminação

Catalunha, hoje - foto net


pode o poder 
estúpido e cego
calar a voz
na vontade dum povo?

é na injustiça
e prepotência
que se forjam nações.

"a liberdade está a passar por aqui"

.....

por quem esperei - 
somos "filhos dum deus menor"
(verso e reverso)

1.- 

cavalgar o tempo
a cada momento
dobrar o infinito
no presente fito
qual prado aberto
ao nosso encontro.
e tudo se perde 
em qualquer espera.



2. - 

vem ter comigo 
ao país dos sonhos
aquele outro
o sítio 
dos nossos encontros.

vem pela manhã
bem cedo
antes da crueza da luz 
apagar as sombras  
do nosso lamento
não esperes a tarde
que cedo é a noite 
de tanto tormento
para nós podermos 
ouvir o cantar 
dos pássaros
diferente do poiso 
no seu chilrear.

e
nos olhos cruzados
ver os sorrisos
em voos precisos
sentir
através da alma 
o espelho firmado
que nunca nos mente.

e
quando chegares
bem perto de mim
não espantes o passo 
e dá-me um abraço
a encurtar distâncias
das nossas ausências.

podes perguntar
ao vazio perverso
onde é que eu estive
onde foi meu verso
e
se algum dia
me lembrei de ti
como nós éramos
o que esperavas de mim
dir-te-ei 
talvez
não foi só este o momento 
a pensar em ti.

não!
muitos outros houvera
que mal me senti
e
não sei se sabes
mas o tempo parou
quando
aquela esquina
por mim se dobrou.

deixei de te ver
mal perdi memória
por ter acabado
essa bela estória
que estava tão certa
como o dia da aurora
e
outra houvera
se a tua vontade
fosse outra 
que não
a de partires
sozinha
ao largares-me da mão
contrariando a vontade 
do teu coração.

vem...
Liberdade.

vem ter comigo 
faremos o nosso melhor
e juntos seremos
o que
separados não temos.




quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Equador

desenho de LuísM


Um chão de Mar
Estendido ao olhar
Ao meio do dia
A travessia.

Linha do Equador
Um barco quase a vapor
O 'Quanza' a lamentar
O seu vagar.

E nos olhos da criança
A esperança
Debruçada 
Na âncora pendurada.

E na água prateada
Deste Mar
O menino espreitava
Os golfinhos junto à quilha
Num suave navegar.

(reeditado)


terça-feira, 19 de setembro de 2017

pequeno ponto azul nos confins do(s) universo(s)






misteriosas e estranhas veredas estas que
presas ao tempo colam imagens
fragmentadas
de verdades construídas nas incertezas e nas crenças com que habitamos os nossos medos.

esse tão diminuto grão de poeira onde permaneço
este meu ser, é uma ínfima parte no momento
instante que se faz num querer
tão absoluto.

viver o agora, sem muito pensar no passado
e com o próximo ou longínquo futuro
não estar angustiado
é passaporte para viver despreocupado.

mas tudo o que faço tem influência no futuro
e é nessa perspectiva, sem acreditar
noutras vidas, que não a que vejo e sinto,
que se me fosse dado olhar, dum distante sistema solar, a Terra parecer-me-ia uma frágil poeira no ar.

não há salvadores ou protectores
que nos venham ajudar.

...e só nós dela teremos de cuidar.

[nota: lamentavelmente, continuo com problemas na m/conta e impedido de comentar em blogs do Google.]