sexta-feira, 16 de agosto de 2019

"Também tu, Brutus?"


Aos motoristas de “pesados”- Um drama em dois actos:

(a cultura liberta o que o trabalho aprisiona.)

Acto I - A Noite

Apresa-te ao volante, meu amor
Como se o circo entre mãos
Fosse vida
Essa tão escassa certeza
Com que me tens.

Dorme só
Pois do meu leito
Partilho a tua ausência
E o vazio e’ meu destino
E martírio.

Quando teus olhos
Ficarem presos ‘a escuridão
Numa qualquer estrada
A aproximar-te
Pensa nos rebentos
Que aguardam o crescimento.

Não te deixes adormecer
Pelo cansaço de não te ver
E pela rotina
Nas horas esquecidas:
 Labutas mal retribuídas.

E quando tiveres fome
Pára por momentos
Pensa em mim
Como se eu fosse a fonte
Com que te hás-de reanimar.

O teu patrão não e’ aquele
Que te solda a escravidão.
E’ aquele, que acima dele
E’ dono da economia e da Nação.

E’ ele que te trai
Sem dar a cara
E sem se ver a sua mão.  

Acto II – As Sete Irmãs

O cerco delineado foi claro:
- Não haverá lugar ‘a inocência
Pois neste Reino tudo ficara’
Dentro do eixo, neste Poder
Que manipulo e não deixo
Que outro qualquer
Tenha a veleidade de pensar
A liberdade
E muito menos de per se
Conquistar outra vontade.
Dixit

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Rotas



Rotas

Folha caída ao vento
Dispersa
Restolho de seara colhida
Dum Fogo Antigo
Activo
Ainda E
Quase esquecido.

Charneca estimulada
No canto
Ou no choro da criança
Guardado no
Berço
Raiz e caule
Do grão - que se fez pão –
Nos olhos
Da fome germinados
Lágrima
Fundida em ouro
A embalar a tristeza
Plantada
No dia de todos os ninhos.

E a águia. Mãe
Dulcíssima
Em voos de colisão
Contra máquinas
Duma estranha civilização.

(Pássaros de Fogo)

sábado, 6 de julho de 2019

Estuário



Nesta manhã. Com o estuário a reflectir. A luz
Cintilante das águas. Há um destino na Foz. A
Deslizar. Sem pressa de chegar.

E das serras e dos vales, dos rios e dos mares
E de todas as margens por onde o olhar se expande
E os horizontes se curvam. E dos sonhos por
Dentro. E voos na aprendizagem dos ninhos. E
Da brisa. A refrescar paixões. Respira-se
A vida, maturado fruto, que o ventre abriga.
E o colo aconchega. Como se os cheiros da dor
Fossem partos de saudade. Esquecidos.
No desprendimento das mães. Em novas gestações.
(reeditado)

quinta-feira, 4 de julho de 2019

flor do deserto

Oh quanto lamento
há no meu triste, sombrio e vazio olhar
de não te ver mais cedo de mim aproximar.

Aguardo esse passo de andorinha
no arrastar do sonho, ao andar e
quando chegar
todo o meu ser se há-de iluminar.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

corpo de delito

em tua mãos
todas as chaves
guardadas
das portas
trancadas.

o silencio da casa
-traves suspensas-
a levitar a luz.

o sol peleja
insistentemente
como se fosse gente
infiltra-se
pela fechadura
franqueia a entrada
atravessa o espaço.

e tu
sozinha
calada
'a minha espera
sem fazer nada.

tempo...

A Persistência da Memória_Salvador Dali

dei-te o bem mais valioso
que possuía na minha mão:
o tempo, quase todo, que era meu.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

olhos sem pecado

os olhos que
não sei dizer
o momento
de os ver
tão intensos ou
a esmorecer
largam o infinito
nas mãos
trazem no ventre
o lamento
como carregam
o sentimento
a perderem-se
em comunhão.

escondem-se
dentro de si
como quando
eu nasci
no abandono do ninho
sem asas para voar,
ainda.

não querem
olhar a vida
no sofrimento
do parto
encarar o mundo
dum salto.

findam-se na
inocência
sem pecado
original.

29.mai.2019

quarta-feira, 12 de junho de 2019

o outro lado

Di Cavalcanti - Mulata em rua vermelha,1960

[Sobre o poema “Endechas a Bárbara escrava”, abaixo,
de Luiz Vaz de Camões (Lírica)] 

tristemente linda 
no seu esvoaçar 
como se borboleta 
se quiser deitar 
poisava no chão 
estendia a mão 
para do seu amor 
se tomar sem dor. 

e cantar, cantar…
a sua dor sentida
a sua solidão
até a noite chegar. 

cativa que foi 
sem por nada dar 
a doce mulata 
nascida da mata 
essa linda flor 
cobiçada ainda 
por poetas, pintores 
a cruzarem linhas 
a fixarem cores 
olhavam p’ra ela 
perdiam-se de amores. 

mas a sua paixão 
era outa, então 
enviado que fora 
para o longe sertão 
era, como ela 
escravo da coroa. 

a sagres chegou 
na mesma caravela 
que dali partiu 
e foi descoberta 
o que o mundo viu. 

só ela não viu.. 
só ela não riu. 

os anos passaram 
e na sua pele 
então delicada 
- passando por moura 
ou princesa raiada - 
ficaram as marcas 
daquela prisão 
e deixaram mais tristes 
os olhos tão negros 
da separação.

LuizM Castanheira

....
Endechas a Bárbara escrava

Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.

Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que pera meus olhos
Fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.

Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.

Uma graça viva,
Que neles lhe mora,
Pera ser senhora
De quem é cativa.

Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.

Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.

Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E. pois nela vivo,
É força que viva.

Luiz Vaz de Camões (Lirica)

sexta-feira, 7 de junho de 2019

tesouros

[Em português me habito,
pátrias longínquas
.] lmc

Nós nem sabíamos nadar
Não sabíamos doutras margens
Outras praias
Onde pudéssemos ancorar.

Oh, caravelas que me trouxeram
A este longínquo mar
Afundai os tesouros
Para não os puderem levar.

E deixai-me ficar…

7.jun.2019

quarta-feira, 5 de junho de 2019

O navio

Há um navio em sonho
navegado
Na criança dum tempo
desancorado
Que de sonho se fez ao mar
e acordado
Quis o sonho voltar a ser menino
voltar àquele lugar.

5.jun.2019