quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

linhas cruzadas

José Malhoa_praia das maçãs (detalhe) 1918

tomaste-me a mão como quem toma o coração
e sobre a pele desenhaste linhas de vida
numa linguagem que aprendi a soletrar.

olhei-te nos olhos 
e todas as palavras até aqui
usadas
esqueci.

LM_14.fev.2018

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

o barqueiro

Tinha as mãos calejadas da enxada.
De vez em quando, esta desencavava-se. 
Batia com o cabo e o olhal numa pedra, das muitas que teimavam em aparecer por entre o monte de terra, ali, ao lado, pesada pela chuva da véspera.
Do nariz aparecia alguma humidade da idade e das noites frias. 
Os dedos serviam para o limpar. Sacudia para o chão restos que não desejava, mas sem demonstrar vergonha.
Também as calças de treino, vermelhas e muito coçadas, caíam com os movimentos dos braços, já nitidamente cansados. 
Puxava-as para cima, enquanto endireitava as costas. 
Aproveitava essas pequenas pausas para descansar um pouco.
Sentia-se, pela respiração arfada, a idade avançada.
Aos poucos lá foi tapando aquele buraco.
Não estava sozinho. Mas só ele laborava.
Muitas pessoas em redor, esperavam, pacientemente, o fim deste último acto, em homenagem a quem partia. 
Sendo aqui, a última morada.
Peguei numa moeda e dei-lha.
Era o pagamento ao barqueiro que, para a outra margem, transportava uma alma.
Era o coveiro.

LM_02.jan.2018

Nota adicional: Este é um texto não ficcional. É das últimas imagens retidas, entre a mágoa e a compaixão, ao acompanhar o funeral dum Amigo e foi escrito no próprio dia, tal qual aconteceu. Um drama vivido e muito constrangedor. Aqui fiquei até ao fim, à cobertura por flores, no apoio da família, dele e minha.

Paz à sua Alma!

5.jan.2018

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

(sétima esquadra)


cidade estendida
com betão e muceque
e a criança moleque
nos sonhos perdida

atravessa travesso
as ruas que habita
faróis quentes nos olhos  
e fria noite desdita

imagina ainda
a barriga cheia
o colo da mãe
aquela que não tem

mas para quê pensar
se mais infeliz fica
ao deixar de caminhar?

LM_31.jan.2018


.....

imagem sapo

O MUNDO ESTÁ A TORNAR-SE UM LUGAR MAIS PERIGOSO PARA MUITAS CRIANÇAS, ALERTA A UNICEF



A UNICEF lançou ontem, 30 de janeiro, um apelo de 3,6 mil milhões de US dólares para prestar assistência humanitária vital a 48 milhões de crianças que vivem em ambiente de conflitos, desastres naturais e outras emergências em 51 países em 2018.
in: https://lifestyle.sapo.pt/

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

por este mar....

1.

*da génese do poema*

e por vezes nada mais resta
senão, deixar correr as águas. 

onde uns vislumbram céus
azuis do poema 
outros vêem clareiras cinzentas 
de amargura

e, no entanto

o poema nasceu 
dum simples fonema
de pensamento germinado
e tomou um qualquer caminho desenfreado
na vontade de crescer 
e tornar-se acarinhado
não indesejado...

como embrião
tomou-lhe vida
cresceu diferente
independente
liberto da criação
e de quem lhe deu a mão.

lê-se o poema 
num espelho de emoções e
sílaba a sílaba
constrói-se a imagem
com o ângulo de luz 
que cada um quer direccionar
ou, então, perde-se
no emaranhado mapa das palavras
tão ilegíveis são as suas constelações.

.....

2.

este não é o tempo
não é o momento
de fechar os olhos
de travar o vento
de prender a mente.

este é o tempo
de deixar voar o sentimento.

......

3.

*a bailarina*

rodopia a silhueta na crítica sustentabilidade da linha
e, a asa aberta, em círculos
voa rente ao chão musical
como se pomba branca
quisesse poisar.

e a beleza torna-se intemporal.

......

4.

são horas de esquecer todos os relógios
de apagar todas as sombras
e de caminhar com os olhos cerrados ao passado.

são horas de não mais voltar atrás.

.....

5.

incontestável desejo
na asa do ninho
no voo sem escola
na liberdade do beijo.

a casa na duna
e a porta aberta 
ao dourado poente
e  verde mar
no limite do sonho.

e tu, em contra-luz.

....

6.

esta mágoa 
que em lume brando arde
das guerras já devoradas
nas ausências incontidas
nos despojos conquistados
e das feridas por sarar.

e tudo se perdeu
todo o turbilhão de paixões
foi um vendaval de ilusões
foi um dar-se sem razões
uma qualquer acendalha
que na fogueira das vaidades
se apagou antes da fornalha.

ficou só esta mágoa que perdura para além das cinzas de ternura
varridas para longe da memória.

.....

7.

a pior demência é aquela que não se vê
mas, quase o mesmo será vê-la e não reconhecê-la.

este mundo é um manicómio
onde não cabe mais ninguém.

(a propósito da II temporada da série "uma aldeia francesa")

......

LM_25.jan.2018

domingo, 14 de janeiro de 2018

o felino


a noite fria de janeiro
acordou com o gato preto
no telheiro.
toda a paixão era espera
de olhos cansados
na longa vigília da 'fera'.
mas logo a vizinha 
sem nada saber de amores
enxotou-o 
com vassourada de dores.

LM_14.jan.2018