terça-feira, 30 de novembro de 2021

como se fosse ar a respirar

se tu quiseres, amor

fecho os olhos loucos

aos dias sombrios 

à incompreensão 

ao desencanto

à inquietação.

nada me fará confusão.

nada ouvirei e

da minha voz

um só som ao respirar

um só coração a latejar.

não haverá canto

ou sereias que me desviem

desse destino

neste caminho

ao teu encontro

com carinho

mesmo que pareça ilusão.

se tu quiseres

voltarei ao tempo esquecido

como se fosse ontem

e recomeçarei meus passos

com mãos estendidas

ao teu abraço.

se tu quiseres

serás de novo meu porto

meus cais

meu mundo ancorado

minha estrela 

na tarde começada

como se o princípio do mundo

fosse a luz que me guia.

se tu quiseres, amor

faço deste dia interminável

o dia do nosso  esplendor.


segunda-feira, 29 de novembro de 2021

luz

 


dorme a cidade

e as nuvens escuras

deslizam suavemente

sobre os sentidos.


espreita a lua

as almas adormecidas

por entre a paixão

solitária

sem outra razão

que não, a certeza

do equilíbrio da matéria.


ruas vazias

e pouca iluminação

artifício

moderno duma civilização

aguardam o tráfego

desgastante

do dia-a-dia.


amanhã haverá outra luz

que a tudo nos conduz...


domingo, 28 de novembro de 2021

ecos

dobram-se ao tempo 
ao vento
o estado de espírito 
o pensamento
recordações 
remanescentes 
ecos distantes 
de sonhos 
que seriam da vida 
alimento.

sábado, 27 de novembro de 2021

corpo presente

pedi-te um sorriso

sob todos os ângulos

para ver uma imagem

multiplicada

em espelhos e planos e

da profunda visão

reflectida

veio-me a cristalina

certeza

melhor fora

a física aproximação.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

esta nossa casa

onde já se não brinca

com bolas de sabão

na mágica descoberta

dum Universo em expansão.




esta nossa casa

onde o riso duma criança

se perdeu

e a memória se desvaneceu

como se o Mundo fosse um pião

lançado em rodopio

tão velho como qualquer ex-campeão

já cansado

de contemplar a sua destruição.




esta nossa casa

escureceu

pelas minhas e outra mãos e

a criança que fui

deixou de ser

onde tudo era inocência e criação.




e que a corda enrolada desse pião

mais parecia uma lança

a conquistar um coração.




mas se tu quiseres

- certo, amor?

na hora que chegar

voltarei a brincar

e lançarei os dados

sem nada ter a ganhar.




deitarei à sorte e esquecerei

que o nosso Mundo

deu um trambolhão.




esta nossa e velha casa

ainda não caiu

mas cada mais

a vejo mais pequena...

com pena.

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Sina na mão

As linhas traçadas na palma da mão

são brancas 

como asas abertas do teu coração.


Leio-as - ou talvez não.


Tocá-las-ei por dentro

à luz do dia quando o sol brilha

e  a transparência dos teus olhos

me digam se são verdadeiras

ou não.


e, à noite, levo-as presas 

para com elas sonhar, mesmo 

não sabendo o que são.


terça-feira, 23 de novembro de 2021

marés

difícil este mar enigmático

sem se revelar

esta bruma da manhã

sem levantar

que não deixa o olhar poisar.


o primeiro amor 

a primeira ilha

a floresta virgem

e a frescura 

num corpo desenhado

sem dor 

e a memória etérea 

que já foi

embarcada em mistério

por esses mares nunca 

nunca alcançados.

 





domingo, 21 de novembro de 2021

A fome



Adeus Maria
Que eu vou p'ró mar
Buscar sardinha
P'ra seres rainha
Ela é fresquinha
É como a prata
Não tenhas medo
Que o mar não mata.
(popular - exerto)

Não vás ao mar
esta manhã não vás ao mar
filho
ele está bravo
e pode-te apanhar
e eu aqui fico 
sozinha
a lamentar
ter-te deixado 
ganhar o pão
para nos sustentar.

Olha lá, mãe
não tenhas medo
de quem
de braços abertos
nos recebe
como ninguém.

O mar não mata
a fome é que mata 
nesta desgraça
que nos sustem.



(Integral)

Não vás ao mar, Tónho
Está o mar ruim, Tónho
Se vais ao mar
Fico sem ti, Tónho

Ai Tónho, Tónho
Tão mal estimado és
Ai Tónho, Tónho
Nem umas meias tens p'rós pés

Adeus Maria
Que eu vou p'ró mar
Buscar sardinha
P'ra seres rainha
Ela é fresquinha
É como a prata
Não tenhas medo
Que o mar não mata

Tem dó de mim, Tónho
Não sejas mau, Tónho
Não irás mais, Tónho
Não irás mais
P'ró catatau, Tónho

Olha p'ró mar, Tónho
P'ronde é que vais, Tónho
P'ronde é que vais
Tás'ma matar, Tónho
Não posso mais, Tónho
Ai Tónho, Tónho
Tão mal estimado és
Ai Tónho, Tónho
Nem umas meias tens p'rós pés.


terça-feira, 16 de novembro de 2021

novembro


foto do autor



são perfumes na tua mão

as carícias desta brisa

em extemporâneo verão.


flor sempre

de novembro antigo

e presente.

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

O ladrão

Eu conheci um poeta

Em tempos que já lá vão

Que escrevia como meta

As dores do coração


Tinha a louca paixão

De dormir durante o dia

E à noite pisar o chão

Até sentir o que via.


Porém, certa madrugada

Cansado de tanto andar

Olhou a cidade encantada

Sem saber como a amar


Sentou-se frente ao rio

Olhando a outra margem

E sentiu um  forte arrepio

Por ter a vida em paragem


Não esperou pela demora

Do sol que não aquecia

Levantou-se, foi-se embora

Vendo que a vida o não queria


Em casa acabou de entrar

Deitando-se p'ra descansar

Mas na cama à sua espera

Estava a morte p'ro levar


- Chegou agora tua hora

Procurei-te p'la noite fora

Já que de dia não te via

Chegou agora a tua hora

Este é o momento que seria

Se antes a noite fosse dia


- Tens o desejo ancorado

No teu peito sempre fechado

Do coração não abres mão

Tão cerrado na escuridão

Por isso levo-te comigo

E ficarei sempre a teu lado

Num escudo bem apertado

Onde eu sou só um ladrão.


(coisas antigas -poema não datado)