terça-feira, 22 de maio de 2018

dimensão

Júlio Pomar_Pintor_ 1926-2018




dimensão, 
palavra-forma,
limitação ou expansão?
corpo ocupado,
ocupação!

e se hoje falasse de ti, pintor?

da obra, do homem, do cidadão,
tantos outros falarão.
mas eu gostaria mais de falar
da matéria que forma universos
e da tua constelação.
e das estrelas a darem vida, enquanto são.

hoje morreste.  
e se tiveres de fazer o desenho mais que perfeito,
nas cores inexistentes,
será lá, onde o sonho se torna infinito.

lm_22.mai.2016



domingo, 20 de maio de 2018

poema datado



Paula Rego, “The Cadet and his Sister”, de 1988


clara madrugada
que do sonho 
fazes memórias
e dissipas nuvens
escondidas
no rosto da lua
como espelho
da alma estendida.

horizonte
ao meu encontro
sentido
puro e doce.

juro!

olho-te
por dentro de mim
num carinho
sem fim
rio
que a sede mata
serpenteado
nas margens
entre beleza e arte.

desenhadas estrelas
no curso do olhar
dois faróis
e tanto mar
que guiam o caminho
feito destino
para a ti chegar.

lm_16.mai.2018

quinta-feira, 10 de maio de 2018

o que não sabia

Eu avisei-vos, 
senhores do Norte
que nada sabia
das origens desse dia

Sitiados meus olhos, 
as margens
vêem correr as águas 
E eu não sabia
Que todo o poema 
é alquimia
E plantado, 
pode alterar 
a estrutura universal

Eu não sabia

Que o seu olhar, 
deslizava para o mar
Como esse rio, 
largo na foz,
mas que teve estreito veio
no génese da vontade

E quem saberia
que do sonho 
faria fantasia
Estrelas por cima
de costas estendido
na erva (terra que digo)
em cama de abrigo

Eu, então, não sabia
que os anjos eram delírio
na inocência que perdia
A cada passo...
a cada nova teoria

Eu avisei-vos, senhores
de qualquer latitude
que o poema ilude
E na longitude dos ventos
há sempre folhas secas
abaladas nos seus vôos.

lm_11.mai.2018



sexta-feira, 4 de maio de 2018

éter


suavemente,
bati à porta da casa
encostada e sem fechadura.

- tinha aspecto habitável

fui entrando
ainda mais suavemente
como se o vento
a pudesse escancarar.

- ninguém...
me esperava ao chegar

a mesa posta
a sala acolhedora
e as jarras com flores.

- ainda viçosas e de várias cores

pé-ante-pé 
num acto de fé
sentei-me 
e...esperei.

- o tempo passava
e ninguém se aproximava

à minha volta
o silêncio falava 
dum tempo que foi
na beleza que soi.

subitamente,
sob os meus olhos
poisou o poema
qual pássaro ferido.

era um corpo cansado
de horizontes estendidos
e nuvens voláteis
como seus amigos.

inscrito sobre ilhas
cantava amores 
alegrias e dores.

era um sonho escondido
e tarde aos meus olhos
vertido.

- como se estivesse perdido

no tempo medido
eu li-te, poema
quase foste inventado
tarde
como se o sonho
tivesse acabado.

em cada ausência
a inexistência de cinzas
e cada lugar
estava ocupado.

- mas o tempo não espera

- e não sei
quem regará as flores

hoje, poema 
foste desejo 
na leitura e no ensejo.

na descoberta
da obra órfã
com que te vejo.

(à poeta Laura Santos, e ao seu blog , "Escrita no Vento", que encontrei encerrado, mas integro e tardiamente por mim descoberto: http://escritacommusica.blogspot.pt/?m=0)

lm_04.mai.2018

domingo, 29 de abril de 2018

bons ventos



se faz e desfaz
a guerra
e a paz

(na mão escondida, o pecado irmão)

e se aguarda a mudança
com ou sem esperança.

(reeditado, de 30.jul.2017)
......

koreia unificada

ah, que já há nova
esperança
nas noites de luar
ou no sol de outro dia
na paz que há-de chegar.

novos ventos
sopram vontades
nos muros a derrubar.

- e é tanto, o mar...!

lm_29.abr.2018