sábado, 22 de janeiro de 2022

amor sem tempo

maior que o pensamento

flor sem tempo

mais livre que o vento

portas abertas

do nosso contentamento

meu voo 

em crescimento.


alvoroço-deslumbração

folhas varridas do chão

pobres lamentos

como velhos sentimentos

dum amor em renovação.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

um doce amargo



em todo o lado
o pó assentou
e o vinho 
já tão antigo
ali ficou 
esquecido
em garrafa de vidro 
pardo.

douro envelhecido
na garrafeira
perdido
como perdido 
foi o seu fado.

aberto 
muitos anos depois
com a rolha podre 
de razão
passado estava 
entre os dois
nos trinta anos 
de desconsolação.

mesmo assim
dispersou o olhar 
pelo vazio do lugar
bebendo o sono 
nos cantos esquecido
no doce tempo 
retido
sem por ele se ter 
o vinho vertido
num brinde 
ao jantar.

na boca restou
aquele travo azedo 
dos beijos ausentes
desse um outro tempo
em que a casa respirava
sorrisos
derramando brindes
nos olhos brilhantes.

o soalho era alma
tão limpa que
brilhava
e o sol dos dias
de cada dia
trazia alegrias.

agora 
persiste a memória
que espreita
por fora da porta 
e teima
na reflexão suja 
dos espelhos
como a querer perguntar
se tudo está bem
como nos bons dias 
que deles foram
e os deixaram estagnar.

sem nada a fazer
abriu a janela
e o inverno descido 
nas folhas da agonia
secas do abandono 
e solidão 
em voos 
rentes ao chão
tinham a desolação
que o vento arrastava
em remoinhos 
de compaixão 
deixando para trás 
a mãe enraizada
de ramos depenada
onde só os galhos
serviam de sustentação
aos muitos pardais
que partem dos beirais
em rápidas descidas
directas
tornando-os mais visíveis
na observação.

as folha caídas
davam lugar às penas
e de pena era o olhar
daquelas aves 
numa visão lateral
como se o mundo
tivesse dois lados:
o do bem
e o do mal
sem saberem
que nem tudo está bem
e não se pode esquecer 
e calar.

longe vai agosto
que já nem a lembrança da praia
ou outro vinho de última colheita
lhe dá real gosto.