sexta-feira, 17 de setembro de 2021

...

sonho no sono pesado
e no sonho, o choro
por teu choro largado.

mas acordado
sorris
aqui ao meu lado.

sábado, 11 de setembro de 2021

retalhos de vida

 A tarde a chagar ao fim sem, antes, não aproveitar os últimos raios de sol para, "esplanadar" um pouco e beber umas " imperiais". 

Tantas eram as mesas cheias de gente que esperei um pouco para disponibizarem mais.

Á chegada, distribui cumprimentos, em especial a uma velha amiga, a Carla, e falamos dos filhos (filhas) e da saudade do Mário, que à muito nos deixou: seis anos.

Qual não foi o meu espanto quando, na mesa em frente, depois de me sentar, vi a d. Maria José, mãe do Mário, de 93 anos, a comer um gelado.

Parecia mais pequena, mais solitária, mais triste. Estava tão bela que a sua branca cabeleira era as únicas nuvens no horizonte.

Fui ter com ela e disse-lhe que tinha estado a falar do filho (único) e da falta que nos fazia.

O Mário tinha sido piloto de hélis durante a guerra colonial, em Moçambique, e era dele a expressão "zigarolho", a máquina que pilotou.

Com a imensa bebida ingerida, no meio de dois casamentos falhados, lá deu cabo de dois fígados, um transplante, e uma vida de bagaço, logo pela manhã, até adormecer ou esquecer-se do caminho para casa.

Dei-lhe um beijinho e disse-lhe que ele deveria estar a olhar para nós, pela coincidência de ter estado a falar dele, com saudade.

Comovi-a e, no meio de recordações, disse-me que não sabia o que andava cá a fazer, - embora a sua casa tenha sido visitada pela Segurança Social e terem ficado admirados pela limpeza e actividade da sua longa idade, sozinha -, pois ainda agora tinha morrido um homem bom, quase da sua idade, o dr. Jorge Sampaio.

Disse-lhe que alguma razão haveria de haver...para cá continuar.




terça-feira, 7 de setembro de 2021

07-set-2021

hoje é o meu dia. 

vou pensar em tudo para não pensar em nada.

meu grito do ipiranga foi há muito libertado.

pelo meio guardei no sótão o tempo da marés batidas,
dos amores, paixões e traições,
de amizades e frustrações.

tudo fechado a sete chaves.

nada mais me oculta as terras altas
e o mar-chão
com que beijo as tuas mãos.

- hoje é o meu dia

a ti o dedico!

sábado, 4 de setembro de 2021

côncavo e convexo




preciso de ti
mas também preciso do silêncio
em mim
sem ti.

preciso de estar só
comigo
sentir-te ausente
e desejar-te presente.

preciso, enfim...
preciso de pensar em ti.

.....

não sei o teu nome
nem a forma do teu sorriso
não sei quando chegaste
nem o passo que a mim deste.

não sei donde vieste.

duma curva da estrada
tu apareceste do nada
como serôdea andorinha 
que não quer ficar sozinha.

não sei ao que vinhas.

uma luz em arco-íris
tesouro por mim recebido
num horizonte perdido
que de meu a vida fiz.

não sei o que me deu
para ficar sempre teu.



domingo, 22 de agosto de 2021

o mar

de olhos fechados


trazia nos olhos os cais de embarque de 
um navio já sem mar.

adivinhava-se-lhe uma tempestade 
nas águas revoltas
quando dos seus passos uma 
linha imprecisa se desenhava na amargura 
da pedra.


outras vidas tinham sido a sua 
quando, mais novo
nos caminhos de oceanos 
conhecia um lar.

ainda se lembrava, vagamente, 
o primeiro porto 
onde o sol prometia horizontes
em ilhas virgens
para se poder encontrar 
e, fazer sentido 
do seu destino.

agora, perdeu a vontade de 
partir 
para esse, ou um 
outro qualquer lugar
a que quisesse chamar seu e acostar.

já só quererá fechar os olhos 
descansar e... ver o mar.

sexta-feira, 23 de julho de 2021

plenitude


foto do autor


Uma sinfonia de ausências

espalhava-se pelo corpo suspenso

como uma ave na copa das árvores

após escapar do cativeiro.


Sob a sombra imobilizadora da voz

ouvia longe os sons dum mar agitado

a bater nas fragas enraizadas

na teimosia duma existência sem fim.


Pensava naquela lua cheia de Agosto 

a pratear-lhe  o desgosto

em contraste com a harmonia deste dia.


Era um tempo que agora vinha despertá-lo

dentro do aconchego dormente da sua vida;

um desejo na hora vegetal; uma sêde

 estendida ao sangue, em caudal de rios

 intempestivos. E o movimento de todas as

 árvores à sua volta, como se ele fosse um

 minúsculo planeta, numa constelação de

 recordações.


Dizem que as árvores morrem de pé

ao contrários dos homens com ou sem fé. 


Deitado, via-as reclamarem da

incompreensão da sua linguagem, da sua

mensagem: o conhecimento dos ventos, da

imobilidade e do sofrimento; da luz crua das

manhãs; da chuva, benção e tormento; e das

noites solitárias em que, do silêncio, tiravam

prazer.


Incontidos os sentidos, sentia, no seu mais

profundo ser, todas as cores da alma 

a dançarem, derramadas, na folhagem 

verde daquele momento.


Estava só, mas tinha todo um mundo a

 rodeá-lo.

domingo, 6 de junho de 2021

O jardim

Lembra-me um jardim 

este meu sonho:

um banco, a sombra e tu 

um pouco longe de mim.

Lembra-me 

a árvore ao lado da clareira

(essa árvore que vivia em mim)

e no meio desta

o lago a espelhar-se entre o sol e 

a sombreira.

Lembra-me a tua silhueta 

ao fundo 

e o entardecer a doirar a tua pele;

os aneis brilhantes 

dos teus olhos, castanhos 

e a doçura desta luz a pentear-te.

Lembra-me quando te aproximaste

e gravaste em mim

um coração cheio de perfume

e por baixo a palavra sem fim:

"amo-te".

Deste meu jardim

a árvore que vivia por mim

(acácia rubra de paixão)

deixou cair uma flor

ao teu regaço, amor

uma só flor essa que escolhi 

e ta ofereci.

Lembra-me este sonho

como se acabasse de o sonhar

acordado

e o dia fosse igual

igual, nesse meu jardim.

sábado, 29 de maio de 2021

o leito

I.

tenho um rio dentro de mim

mas a minha sêde é a sede de 

todas as angústias.

lá moram as mágoas que 

não sabem nadar.


II.

Tu eras vida

ainda não crescida

eras tudo num pouco nada

pequena semente germinada

eras esperança na madrugada

eras o que meu destino almejava

eras o que não vi

e o meu amor em ti.

Tu eras tudo o que senti.


sábado, 15 de maio de 2021

meus olhos em ti

alguém que tem meus olhos

meus olhos vivem além

meus olhos servem um bem

em outros olhos de alguém.


alguém da minha janela

a esconder o nome dela

por serem tantos os nomes

sem saber qual deles o dera.


meus olhos vivem nos dela

meus olhos riem nos dela

e junto à minha janela

eu vejo-os no corpo dela.


são olhos herdados de mim

como olhos que outros não vi

serão sempre olhos em ti

que de meus não terão fim.

sexta-feira, 7 de maio de 2021

desatino



das margens do tempo
o coração arde
sem compreender porquê.

fosse eu um rio
apagaria o fogo desse desatino
com que queimas palavras
que deram nome às coisas.

das cinzas 
formaria novas palavras
que levariam aos teus olhos
novas formas
novos destinos.

... e  correria para teus braços
como da primeira vez.


"- ai, a puta da ladeira está cada vez mais alta!".
( comentário duma velhinha.)

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Língua Portuguesa_ o sonho


[Dedicado ao Dia Mundial da Língua Portuguesa]

construí um sonho tão leve como o ar
e do sonho quis que aprendesse
a voar.
nuvens e raios de sol
pairaram
nesse meu sonho
para que ele pudesse
ao céu chegar.
ainda ao longe o sonho viu
o azul do mar e
tanta terra a que chegar.
de braços abertos
esperou dos ventos
um abraço de asas
para se levitar.
e o meu sonho
iluminado
se fez na língua voar.
do chão enraizado
o sonho sonhou
com o coração a latejar
o infinito dum olhar.

domingo, 2 de maio de 2021

Mãe


Pablo Picasso

A primeira palavra
Em cada verso teu
Mãe
E em cada letra
Um castelo de Amor
Dos dois.

É Maio. És Poema.
És a Primeira Primavera.

sábado, 24 de abril de 2021

O meu 25



(dedicado 
Salgueiro Maia 
herói improvável de Abril)

Numa já distante madrugada
Lisboa foi tomada.

Salgueiro Maia
- e os seus camaradas -
abandonou a parada
derrubou a ditadura
e voltou a casa
sem querer louros de nada.

Fez-se Abril
duma primavera que tarda em surgir.

.....


25.04.1974

(dedicado a Graça Pires e à Liberdade)

eu era cego
e não sabia
era pobre
e não queria
era escravo
e padecia
era triste
e não sorria.

vivia uma prisão
que me feria
sem saber 
da liberdade
que haveria.

até um dia...

dia de liberação
onde um país
rasgou as grades
saiu às ruas
e chamou sua
toda a cidade.

fui feliz nesse dia.

domingo, 11 de abril de 2021

a arte da memória

foto do autor

o mar vem-me falar
dum tempo antigo
e tráz-me o cheiro
guardado
no museu fechado
do que sou eu.


nesses momentos
arejo o espaço
retiro o pó
abro a exposição
e começa o leilão
de pensamentos.

por fim
tudo é rematado
pelas ondas brancas
da memória.

mas meus olhos
perdem-se
no silêncio dos anos
e nas vozes extintas
deste mar
como se fossem sombras
presas
num império de luz
a cobrirem o azul dos sonhos.


domingo, 4 de abril de 2021

As palavras tardias

AQUI: a inspiração

Por aquela porta entram sonhos
palavras esquecidas
antigas
guardadas em gavetas de solidão
que foram escritas
por uma sabedora mão
e hoje aparecem
como se as árvores crescessem
ainda
em primaveras de paixão.

Por aquela porta
todas as palavras são lembradas
ditas
com o peso e o calor
dum profundo e sentido amor.

terça-feira, 30 de março de 2021

O lado B


Livro à cabeceira
Fechado
De sonho calado
Este Fado
Na página encerrada
A perder-se na madrugada.

Sem vaidade
Dorme a saudade
De voltar a ser estrela.

quinta-feira, 18 de março de 2021

encontro de olhares

[...]..."Gostaria de escrever sobre alguma coisa essencial:
uma casa,  um copo de vinho à noite...]
in:  filme  "Falsche Bewegung" - (Movimento em Falta), de Wim Wenders, 1975 - Restaurado

Tenho a cabeça cheia de sonhos e perco-me na tentativa de os poder agarrar. 
Queimo o silêncio na lareira com as chamas hipnotizantes dos pensamentos e, dos sons leves da lenha a crepitar, vem-me um apelo distante a querer entrar.
Queria descrever o teu olhar e o leve sorriso que, por momentos, atravessaram a janela daquele comboio que partiu. E com ele seguiu quem, com este tormento, acabou por me abalar.
Não te pude conhecer nem muito menos contigo falar. Partiste sem ter chegado.
Desde aí não mais consegui esquecer-te.
Ficou-me essa obsessão de ter perdido a única ocasião de te conhecer. 
Aquele espaço, aquele tempo, em que tudo poderia acontecer.
Foram momentos marcantes que me impedem de escrever ou de pensar noutra coisa.

Quem diria que muitas horas depois, ao chegar à cidade, te voltaria a encontrar?

Passeamos lado a lado e todas as palavras
ficaram por dizer...

Já consigo escrever.





quinta-feira, 4 de março de 2021

a ponte do terror

a minha flor
atirarada sobre as águas calmas
deste rio 
é como a minha dor
- nascida nas agitadas correntes
que foram sepultura de almas
e queda de anjos nas nossas mentes -
mas que perdura
como os nomes inscritos
em pedra dura.

é uma flor virtual
com vinte anos de crescimento
e um tempo sem esquecimento.

(em memória das vítimas da ponte Entre-os-Rios - "Hintze Ribeiro")




© Reuters

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

margens

nadir afonso

dum tempo escondido
o amor
perdido
algures
entre continentes
e as carícias
dormentes.

jovens delírios
em jardins esquecidos
e os beijos prometidos
sem nunca se darem por tidos.

recuam as palavras 
amareladas
no tempo
das sombras dobradas.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Fala-me...

foto do autor


Fala-me da espera

nas estepes da escuridão

como astuta fera

a guardar crias e solidão.

Fala-me dos silêncios 

que teus beijos selavam

em gritos de liberdade

que eu tolo de vaidade

não soube apreender

o valor inocente da verdade.

Fala-me, amor 

como viveste antes do mundo

esse mundo desconhecido

para mim como inexistente.

Fala-me minha querida

da existência vivida

e da sorte da minha vida

na tua mão desprendida.

Fala-me como foi ....pois

um pouco de amor não é amor

mas serve de consolo na dor.


sonhar contigo

sonho com ela ou é ela 

que no sonho sonha comigo?

sonho o que conheço sem

que o sonho seja sonho do avesso.

e do sonho

todo o sonho é baseado no real

tão parecido mas por vezes 

distorcido

sem igual

como miscelânea sem sentido

na visão dum pequeno quintal

em noite sem luar. 

e mesmo neste espaço imaginado

guardo as impressões como se 

vivo fosse o sonho da vida a passar.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

a curva


Para lá da curva, a estrada
continua?

Nada se vê, nada se sabe, mas 
toda a lógica é a de uma estrada 
que é nada
ainda... até passar a curva da 
estrada, que foi e deixou de ser a
incógnita desta pergunta.

Vem isto a propósito da curva da 
noite estar mesmo à minha frente.

sábado, 6 de fevereiro de 2021

movimento

1.

Retirei o poema do estendal
onde estava a secar.

Húmido e amarrotado
não o posso vestir
sem antes o engomar.

Amanhã é domingo
talvez não chova
talvez o possa passear.


2.

Se a vida fosse distraída
enganava-se na porta.

O carteiro tocou
para entregar um sopro de ar.


3.

Quando os valores
veem numa carta registada
há um défice de moral.


4.

Embalar a dor
é o mesmo que enganar o corpo.

Fica o espírito
sem saber para onde ir.


5.

Acordar a força
e respirar o mistério
das manhãs suspensas.

A noite pesou os prós e contras
nas contas
entre o deve e haver.


6.

Inquietação
é tanta
que já não se sabe onde pôr a mão.

Há sempre alguém
que deveria pedir
perdão.


7.

Encanto
dum laranjal feito flor.

Para quando o sumo doce
do fruto?


8.

O pastor pastoreia
também
alguma dor.

Que cabras cria
sem saber de que mães são?


9.

Tapa-se do frio
com a roupa que se tem.

Porém
a única pele que hoje tenho
deu-ma a minha mãe.


10.

Quando sentires vontade de parar
pensa naquilo que te fez começar.

....

Descansa o poema 
sobre a laje branca 
da memória. E bebe 
dos poetas a sábia 
aprendizagem das cores.

Por vezes entorna as 
tintas sobre a clara visão 
da vida, sem saber como 
chegar à contemplação da luz.

Aprende as sombras na voz 
interior da noite e 
nos silêncios das sílabas.

Sobre a colina, larga o olhar 
pelo extenso vale e faz eco 
do amor pela beleza.

Agora, que descansou dos ventos 
intemporais, 
segue ao sabor das marés,
na descoberta de novas rotas.

sábado, 23 de janeiro de 2021

dourada prisão

 



[por minha livre paixão

aprisionei a minha vida

e todo o meu coração.]



pássaro em gaiola fechado

com asas perdidas no chão

o seu sonho foi apagado

na cabeça e no coração.

agora bate contra grades

enquanto canta a canção

de nostálgicas saudades.


já não pensa em fugir

tão esquecido o voar

que a vontade de ir

deste maldito lugar

transformado em prisão

mata-lhe a respiração.

sábado, 16 de janeiro de 2021

(des)Venturas no Armário escondidas




 Eles furam as palavras 

por dentro e

instalam o ódio

como sementre em campo virgem.


Arrasam as sílabas

destroem as vozes 

fecham gargantas

queimam flores

lançam espinhos 

matam amores.


Eles não estão sós:

o seu ideológico rancor

anda por aí

acompanhado

apoiado

(sempre andou)

disfarçado

para não se perceber

como nasce um ditador.


Pisam com as botas cardadas

os ventos da história

implantando velhas ideias fascistas.


Constroem muros

aprisionam livres pensadores.


Eles não sabem cantar

(nunca souberam)

mas tocam músicas para embalar.


Não sabem o que custa

acordar 

alvoradas

de gargantas inchadas

a gritarem Liberdade.  


Eles são aqueles que na sombra

manipulam falsos valores

e destilam antigos rancores.


São milhões

as vítimas 

destes demagogos charlatões.

domingo, 10 de janeiro de 2021

desejo


foto net

1

quando de ti 

meu corpo se acalmou

eras pensamento


intemporal desejo

dependente do crescimento.



2

praias espairecidas 

de marés vivas

a perderem o nascimento


no registo da pele algo físico 

a lembrar este mar que

do horizonte apaixonado se cativou.




quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

cidade em chamas

 


Nero_Imperador Romano




arde a cidade 
na império-capital.

feras soltas

mostram os dentes
em nuvem 
de ódios a pairar.

roma moderna

dividida de nero cheiro.

(e o mundo aguarda, espantado...)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Despedida

Trinam as guitarras

do fado 

"Lisboa, Menina e Moça"

sem a voz

que se calou.


E da memória

toda a cidade branca

se orgulhou.


(ao Carlos do Carmo -1939 -2021)


domingo, 3 de janeiro de 2021

asas do tempo

Quando eu souber
do amor 
imenso que tive
uma asa se desprenderá
na queda
qual ave 
na perda do voo.