sexta-feira, 23 de julho de 2021

plenitude


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Uma sinfonia de ausências

espalhava-se pelo corpo suspenso

como uma ave na copa das árvores

após escapar do cativeiro.


Sob a sombra imobilizadora da voz

ouvia longe os sons dum mar agitado

a bater nas fragas enraizadas

na teimosia duma existência sem fim.


Pensava naquela lua cheia de Agosto 

a pratear-lhe  o desgosto

em contraste com a harmonia deste dia.


Era um tempo que agora vinha despertá-lo

dentro do aconchego dormente da sua vida;

um desejo na hora vegetal; uma sêde

 estendida ao sangue, em caudal de rios

 intempestivos. E o movimento de todas as

 árvores à sua volta, como se ele fosse um

 minúsculo planeta, numa constelação de

 recordações.


Dizem que as árvores morrem de pé

ao contrários dos homens com ou sem fé. 


Deitado, via-as reclamarem da

incompreensão da sua linguagem, da sua

mensagem: o conhecimento dos ventos, da

imobilidade e do sofrimento; da luz crua das

manhãs; da chuva, benção e tormento; e das

noites solitárias em que, do silêncio, tiravam

prazer.


Incontidos os sentidos, sentia, no seu mais

profundo ser, todas as cores da alma 

a dançarem, derramadas, na folhagem 

verde daquele momento.


Estava só, mas tinha todo um mundo a

 rodeá-lo.

1 comentário:

  1. "Estava só, mas tinha todo um mundo a rodeá-lo.". Este final de poema explica a sinfonia de ausências, a sede estendida no sangue, a luz crua das manhãs e das noites silenciosas e uma enorme inquietude do Poeta. Muito belo, Luís. Desejo que estejas bem. Um bom fim de semana.
    Um beijo.

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