terça-feira, 12 de junho de 2018

dia histórico

Hoje é um dia histórico.
Após 68 anos (1950) de ter tido início a Guerra da Coreia, que desde então manteve dividido um Povo e criou dois países, até agora, em guerra técnica;
Guerra que durou até 1953, causando quatro milhões de mortos, e foi apoiada, nas partes, pelos EUA, a sul e pela URSS, a norte;
Foi dado um passo que, ainda à um ano atrás, parecia impensável.
O Mundo esteve então à beira de uma Guerra Nuclear.
Como aconteceu com o Muro de Berlim e a unificação da Alemanha, acredito que num futuro mais ou menos próximo poderemos assistir a algo análogo.
Mas, acima de tudo, o que mais importante aconteceu hoje foi a criação dum caminho em direção às Paz.
Vamos lá a ver como tudo vai acontecer.
De onde menos se esperava, vêm estes fortes sinais de que o Mundo poderá ser de todos nós.

(o poema do ano passado) Aqui e Aqui

sábado, 9 de junho de 2018

o adeus

à chuva e ao sol
e ao vento
dois trapos 
presos ao estendal
e ao tempo
quais bandeiras 
desfraldadas
agitam ausências
para espantar ladrões.

a vizinha
viúva e antiga
que à muito 
vivia sozinha
morreu.

agora, vejo os sinais
desses velhos panos
como dois lenços
a dizerem-me adeus.

lm_09.jun.2018

sexta-feira, 1 de junho de 2018

maio

foto luism

Era Maio. Antigo. E a Rosa. Silvestre. Crescia. Desde a madrugada. À noite. Quase na chegada. 
E o Amor. Quase tudo. Quase nada.
Sorria. Ao dia. A flor. A despontar. 
Sempre. No jardim. Presente.  E airosa. E bela. Colorida. De odor. E o caule na mão. Preso ao fado. Quase homem. Quase menino.

Era Maio. E raiz. Era princípio. E feliz.
Sede e  nascente. Rio e ponte.
E era sal. E mar. E espuma. E poema. Baile e canção. E onda. De pé p'ra mão. E espelho. De água. E Sol. E raio. E Luz. E poente. Nos olhos. Suspensos. Ao sonho. Encanto e miragem. Bonança. E tempestade quase.  E praia. E duna. E maré. Cheia. E vazia. E pelo meio. O vento. A ajudar. Voos. De embalar.

Era Maio. Ainda. A meio ou no fim.
E tu. Aí. À espera. De mim. Oficial-Aprendiz. 

Era Maio... É Maio. Sempre! É o Tempo. E o seu contrário.

lm_31.mai.2018

quarta-feira, 30 de maio de 2018

eutanásia, não


em lugar da morte
assistida
quero a vida
prometida.

quero-a sentida
medida
até à exaustão
mesmo na dor
ou no perdão
de ir ao fim
ver como são
os limites da compreensão.

lm_30.mai.2018

Contraditório


terça-feira, 29 de maio de 2018

"fogo que arde..."

porque me fazes 
prisioneiro desse olhar 
quando essas estrelas 
incendeiam a paixão
como se labaredas 
fossem dentro do peito 
a queimar-me 
a liberdade e o coração?

lm_26.mai.2018

terça-feira, 22 de maio de 2018

dimensão

Júlio Pomar_Pintor_ 1926-2018




dimensão, 

palavra-forma,
limitação ou expansão?
corpo ocupado,
ocupação!

e se hoje falasse de ti, 

pintor?

da obra, do homem, 
do cidadão,
tantos outros falarão.
mas eu gostaria mais de falar
da matéria que forma universos
e da tua constelação
e das estrelas a darem vida, 
enquanto são.

hoje morreste.  


e se tiveres de fazer 
o desenho mais que perfeito,
nas cores inexistentes,
será lá, onde o sonho 
se torna infinito.

lm_22.mai.2016


domingo, 20 de maio de 2018

poema datado



Paula Rego, “The Cadet and his Sister”, de 1988


clara madrugada
que do sonho 
fazes memórias
e dissipas nuvens
escondidas
no rosto da lua
como espelho
da alma estendida.

horizonte
ao meu encontro
sentido
puro e doce.

juro!

olho-te
por dentro de mim
num carinho
sem fim
rio
que a sede mata
serpenteado
nas margens
entre beleza e arte.

desenhadas estrelas
no curso do olhar
dois faróis
e tanto mar
que guiam o caminho
feito destino
para a ti chegar.

lm_16.mai.2018

quinta-feira, 10 de maio de 2018

o que não sabia

Eu avisei-vos, 
senhores do Norte
que nada sabia
das origens desse dia

Sitiados meus olhos, 
as margens
vêem correr as águas 
E eu não sabia
Que todo o poema 
é alquimia
E plantado, 
pode alterar 
a estrutura universal

Eu não sabia

Que o seu olhar, 
deslizava para o mar
Como esse rio, 
largo na foz,
mas que teve estreito veio
no génese da vontade

E quem saberia
que do sonho 
faria fantasia
Estrelas por cima
de costas estendido
na erva (terra que digo)
em cama de abrigo

Eu, então, não sabia
que os anjos eram delírio
na inocência que perdia
A cada passo...
a cada nova teoria

Eu avisei-vos, senhores
de qualquer latitude
que o poema ilude
E na longitude dos ventos
há sempre folhas secas
abaladas nos seus vôos.

lm_11.mai.2018



sexta-feira, 4 de maio de 2018

éter


suavemente,
bati à porta da casa
encostada e sem fechadura.

- tinha aspecto habitável

fui entrando
ainda mais suavemente
como se o vento
a pudesse escancarar.

- ninguém...
me esperava ao chegar

a mesa posta
a sala acolhedora
e as jarras com flores.

- ainda viçosas e de várias cores

pé-ante-pé 
num acto de fé
sentei-me 
e...esperei.

- o tempo passava
e ninguém se aproximava

à minha volta
o silêncio falava 
dum tempo que foi
na beleza que soi.

subitamente,
sob os meus olhos
poisou o poema
qual pássaro ferido.

era um corpo cansado
de horizontes estendidos
e nuvens voláteis
como seus amigos.

inscrito sobre ilhas
cantava amores 
alegrias e dores.

era um sonho escondido
e tarde aos meus olhos
vertido.

- como se estivesse perdido

no tempo medido
eu li-te, poema
quase foste inventado
tarde
como se o sonho
tivesse acabado.

em cada ausência
a inexistência de cinzas
e cada lugar
estava ocupado.

- mas o tempo não espera

- e não sei
quem regará as flores

hoje, poema 
foste desejo 
na leitura e no ensejo.

na descoberta
da obra órfã
com que te vejo.

(à poeta Laura Santos, e ao seu blog , "Escrita no Vento", que encontrei encerrado, mas integro e tardiamente por mim descoberto: http://escritacommusica.blogspot.pt/?m=0)

lm_04.mai.2018

domingo, 29 de abril de 2018

bons ventos



se faz e desfaz
a guerra
e a paz

(na mão escondida, o pecado irmão)

e se aguarda a mudança
com ou sem esperança.

(reeditado, de 30.jul.2017)
......

koreia unificada

ah, que já há nova
esperança
nas noites de luar
ou no sol de outro dia
na paz que há-de chegar.

novos ventos
sopram vontades
nos muros a derrubar.

- e é tanto, o mar...!

lm_29.abr.2018

terça-feira, 24 de abril de 2018

24/25



Tão longa a noite. Da gestação. Da dor. Da pobreza. Da fome. Da incerteza.
E a madrugada nasceu. Fez-se flor. Cresceu. Amadureceu.
Já o tempo é recordação. A criança
pisou o chão. 
Na Liberdade. No caminho. Passo-a-passo. Deixou de ser menino.
A meia-idade deu-lhe os erros do destino. Aprendeu? 
O País está diferente. Atravessou as doenças habituais. Sem vacinas. Tornou-se desigual. Injusto. E mais velho. Com uma dívida sem igual.
(Hoje, já nem a certeza da Habitação)
Quando vejo eu o cumprimento das promessas que Abril deu...?

lm_24/25. Abril - 44 anos após.


"As Brumas do Futuro"
Madredeus
no filme, Capitães de Abril

.....
A ver
"pequeno filme" (15'), de António Cunha, realizado quando dos 24° aniversário do 25 de Abril de 1974:
https://www.facebook.com/antonio.cunha.35/videos/1712753278815564/?t=9






quinta-feira, 19 de abril de 2018

sem título

porque te olho nesse vagar
das horas escondidas?
porque vens embarcada nas
palavras 
em vagas de luares?

já não há sombras quando me dizes "temos de falar".
oiço-te com búzios nos ouvidos
e sonhos no bolso.

deste teu mar, sem fim
acaba de chegar a carta inacabada
sem tempo, sem destino, sem sequer  um adeus
como se o amor fosse uma praia deserta à espera do furacão
e todas as árvores se dobrassem
fustigadas 
ao sabor das causas perdidas.

deixa-me o chamamento 
que gostaria de te ler
ou dos teus desejos um balde de areia
para castelos meus poderes pisar.

brinco as sílabas no arranjo duma criança
para das formas fazer sentido
e construir com esse papel
um barco a navegar 
inclinado ao sabor dos ventos
no lago que o há-de afundar.

já não quero embarcar.

toda essa viagem seria um destino
mais sombrio que as profundezas do mar.
todas as emoções seriam gelo derretido nas calotas polares.

nada sentiria, nem mesmo o meu próprio respirar.

manda-me outra carta para eu aprender-te a amar...

LM_19.abr.2018

sábado, 14 de abril de 2018

eram quatro da madrugada


enquanto os trovões
ecoavam, em damasco,
num subúrbio distante
um galo cantava, no meio
da noite,
no meio do nada.

que canção é esta
e de que falava 
quem nada sabe
de mísseis em alvorada?

LM_14.abr.2018

terça-feira, 3 de abril de 2018

evasões

(para ti, meu amor:)
foto: dn

inventámos uma ilha
quase deserta
quase perdida
onde só os pássaros
renovam esperanças
neste mar que nos rodeia.
vivemos uma vida
para nós pequena epopeia
quase fuga
quase isolada das demais
ilhas
nas emoções contidas.
imaginamos um barco ancorado
à espera da brisa
que da vontade faça voo
e nosso suspiro seja alento
doutros mundos retidos
no pensamento.
esmorece o dia
e a noite cala o sorriso
desta evasão.
amanhã acordaremos
lá longe
desta ilha que em nós habita
com a liberdade no peito
e horizontes no olhar
na (re)escolha de aqui ficar.
LM_03.abr.2018


quarta-feira, 21 de março de 2018

dia da poesia

resolvi escrever um poema
neste dia da poesia
sem saber muito bem
de que falaria
o que é poesia e o que ela contém.

pois então...

o sol brilha como em qualquer outro dia
as noites são frias quando vividas em agonia
os rios continuam a correr p'ro mar
constroem-se mais armas para matar
rouba-se aos povos o que seria essencial para viverem e terem pão
o planeta sofre cada vez mais com a pegada humana
o amor já não é só uma ilha e uma cabana
caiem bombas na síria como poderão cair amanhã noutra região.

e pronto..
será assim a poesia?

sei isso sim que
- a primavera (árabe) é uma quimera!

LM_21.mar.2018

domingo, 18 de março de 2018

silêncio e tanto mais

diz-me, silêncio
quanto de ruído é teu desejo
para dele saíres no que vejo

no riso solto duma criança
a brincar à cabra-cega

na voz doce duma canção
com o dedilhar duma guitarra

no rosto do vento que passa
como carícia que se amarra

nas ondas do mar o rolar
dos sonhos a desbravarem

nos bosques densos o chilrear
dos pássaros a procriarem

mas se isso não chegar
tenho mais uma coisa macia
p'ra te enunciar
a pura poesia 
que nisto tudo podes encontrar

LM_18.mar.2018

domingo, 11 de março de 2018

sem título

correm  p'ro mar
os cantos do olhar.

Imagem_ LM

Escuto os teus sonhos
nas sombras sem corpo
nas manhãs peneiradas
entre voos de luz.

Lá fora, os espíritos
habitavam as águas 
espelhadas dos rios 
de oiro, no ocaso do dia.

Tricoto os silêncios
no fabrico das horas
entre mãos vazias
e âncoras suspensas.

Volto aos sonhos
com olhos de pássaro
e pio os destinos
nas escarpas do ninho.

LM_11.mar.2018


quarta-feira, 7 de março de 2018

Mulher (s)

(para o dia de todos os dias)
Alves Cardoso_1913_museu José Malhoa
dia internacional da Mulher

És semente desabrochada
em flor crescente
e do teu ventre crescido nascem
rebentos de luz
qual constelação que aos meus olhos seduz
beleza num corpo e sentimentos puros na mente.
É em ti, Mulher, que o futuro  é presente
no ninho de carinho que em tudo pões.
Hoje é o teu dia. Amanhã todo o Amor teu, será nosso.

LM_08.março.2018

quinta-feira, 1 de março de 2018

1_6

1.
pétalas 
(violência doméstica)

pisaste a flor.
foi ódio
ou desamor?

talvez seja só
não gostares de ti
ou não sentires dó.

2.
sonhei contigo
e nesse estágio da mente
vivi para além de mim.

e, por momentos
foi outra 
a vida presente.

ausente do corpo
do espaço e do tempo
poisei num universo
diferente.

como a mente mente
em sonhos que a alma sente...

3.
nada a fazer
a não ser
saborear cada momento
este momento
irrepetível.

a felicidade passa
sem se dar por ela.

amanhã
só a memória arrastará
a vã recordação.

4.
canção sem voz

meu amor dá-me o destino
neste mar a navegar
dá-me a copo deste vinho 
para a sede mitigar
dá-me o perfume do teu corpo 
em meu lume quase morto
dá-me as cerejas dos teus lábios
doces frutos no desejo do olhar.
dá-me amor a eternidade
sem ódio ou maldade
puro como o hei-de achar.
dá-me tanto que não queiras
deixar a saudade sangrar
dá-me o tempo sem findar
tempo que há-de chegar.
dá-me a paz nas noites frias
sem as ter como sombrias.
meu amor dá-me um só beijo
no aroma do teu mar
como se fossem primeiro
as águas que hei-de achar.
meu amor dá-me carinho
para a ti poder chegar
dá-me o teu sorriso aberto
e dele nunca me cansar.
meu amor diz-me quem és
na beleza que não vês
diz-me, ofuscado nessa luz
como alcançar as estrelas
no que em tudo me seduz
e perder-me ...
perder-me, mesmo sem vê-las.

5.
de que falam os teus olhos?

tudo fica mais claro
no teu sorriso aberto
na linha mais perfeita
num beijo imaginário.

e agora? 
falo-te, ou vou-me embora?

entre as sombras 
o olhar
na silhueta recostada
a espera 
e o candeeiro de luar
a sonhar... 
sonho de estrela polar
o que só a luz pode dar
e reparar
na mais bela entre as belas
nas manhãs a chegar.

- amanhã voltarei
a pensar neste lugar!

6.
já não sei como dizê-lo
(como é belo o teu olhar)
e nem palavras desenho
nem por gestos os afectos
fazem poemas incertos.

mas sei 
que o teu rosto de luar
veste-me para iluminar.

LM_01.mar.2018

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

linhas cruzadas

José Malhoa_praia das maçãs (detalhe) 1918

tomaste-me a mão 
como quem toma o coração
e sobre a pele 
desenhaste linhas de vida
numa linguagem 
que aprendi a soletrar.

olhei-te nos olhos 
e todas as palavras 
até aqui usadas
foram por mim esquecidas.

LM_14.fev.2018

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

o barqueiro

Tinha as mãos calejadas da enxada.
De vez em quando, esta desencavava-se. 
Batia com o cabo e o olhal numa pedra, das muitas que teimavam em aparecer por entre o monte de terra, ali, ao lado, pesada pela chuva da véspera.
Do nariz aparecia alguma humidade da idade e das noites frias. 
Os dedos serviam para o limpar. Sacudia para o chão restos que não desejava, mas sem demonstrar vergonha.
Também as calças de treino, vermelhas e muito coçadas, caíam com os movimentos dos braços, já nitidamente cansados. 
Puxava-as para cima, enquanto endireitava as costas. 
Aproveitava essas pequenas pausas para descansar um pouco.
Sentia-se, pela respiração arfada, a idade avançada.
Aos poucos lá foi tapando aquele buraco.
Não estava sozinho. Mas só ele laborava.
Muitas pessoas em redor, esperavam, pacientemente, o fim deste último acto, em homenagem a quem partia. 
Sendo aqui, a última morada.
Peguei numa moeda e dei-lha.
Era o pagamento ao barqueiro que, para a outra margem, transportava uma alma.
Era o coveiro.

LM_02.jan.2018

Nota adicional: Este é um texto não ficcional. É das últimas imagens retidas, entre a mágoa e a compaixão, ao acompanhar o funeral dum Amigo e foi escrito no próprio dia, tal qual aconteceu. Um drama vivido e muito constrangedor. Aqui fiquei até ao fim, à cobertura por flores, no apoio da família, dele e minha.

Paz à sua Alma!

5.jan.2018

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

(sétima esquadra)


cidade estendida
com betão e muceque
e a criança moleque
nos sonhos perdida

atravessa travesso
as ruas que habita
faróis quentes nos olhos  
e fria noite desdita

imagina ainda
a barriga cheia
o colo da mãe
aquela que não tem

mas para quê pensar
se mais infeliz fica
ao deixar de caminhar?

LM_31.jan.2018


.....

imagem sapo

O MUNDO ESTÁ A TORNAR-SE UM LUGAR MAIS PERIGOSO PARA MUITAS CRIANÇAS, ALERTA A UNICEF



A UNICEF lançou ontem, 30 de janeiro, um apelo de 3,6 mil milhões de US dólares para prestar assistência humanitária vital a 48 milhões de crianças que vivem em ambiente de conflitos, desastres naturais e outras emergências em 51 países em 2018.
in: https://lifestyle.sapo.pt/

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

por este mar....

1.

*da génese do poema*

e por vezes nada mais resta
senão, deixar correr as águas. 

onde uns vislumbram céus
azuis do poema 
outros vêem clareiras cinzentas 
de amargura

e, no entanto

o poema nasceu 
dum simples fonema
de pensamento germinado
e tomou um qualquer caminho desenfreado
na vontade de crescer 
e tornar-se acarinhado
não indesejado...

como embrião
tomou-lhe vida
cresceu diferente
independente
liberto da criação
e de quem lhe deu a mão.

lê-se o poema 
num espelho de emoções e
sílaba a sílaba
constrói-se a imagem
com o ângulo de luz 
que cada um quer direccionar
ou, então, perde-se
no emaranhado mapa das palavras
tão ilegíveis são as suas constelações.

.....

2.

este não é o tempo
não é o momento
de fechar os olhos
de travar o vento
de prender a mente.

este é o tempo
de deixar voar o sentimento.

......

3.

*a bailarina*

rodopia a silhueta na crítica sustentabilidade da linha
e, a asa aberta, em círculos
voa rente ao chão musical
como se pomba branca
quisesse poisar.

e a beleza torna-se intemporal.

......

4.

são horas de esquecer todos os relógios
de apagar todas as sombras
e de caminhar com os olhos cerrados ao passado.

são horas de não mais voltar atrás.

.....

5.

incontestável desejo
na asa do ninho
no voo sem escola
na liberdade do beijo.

a casa na duna
e a porta aberta 
ao dourado poente
e  verde mar
no limite do sonho.

e tu, em contra-luz.

....

6.

esta mágoa 
que em lume brando arde
das guerras já devoradas
nas ausências incontidas
nos despojos conquistados
e das feridas por sarar.

e tudo se perdeu
todo o turbilhão de paixões
foi um vendaval de ilusões
foi um dar-se sem razões
uma qualquer acendalha
que na fogueira das vaidades
se apagou antes da fornalha.

ficou só esta mágoa que perdura para além das cinzas de ternura
varridas para longe da memória.

.....

7.

a pior demência é aquela que não se vê
mas, quase o mesmo será vê-la e não reconhecê-la.

este mundo é um manicómio
onde não cabe mais ninguém.

(a propósito da II temporada da série "uma aldeia francesa")

......

LM_25.jan.2018

domingo, 14 de janeiro de 2018

o felino


a noite fria de janeiro
acordou com o gato preto
no telheiro.
toda a paixão era espera
de olhos cansados
na longa vigília da 'fera'.
mas logo a vizinha 
sem nada saber de amores
enxotou-o 
com vassourada de dores.

LM_14.jan.2018


quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

por dentro, um só mar

imagem da net


nem todos os rios correm para o mar...

há rios interiores que, sem o saberem, não se ouvem cantar.

e, no profundo silêncio envolvente, nem a luz perturba, nem os ventos agitam, nem os olhares invejam.

por vezes, é nesses abismos que aprecio mergulhar...

LM_04.jan.2018