quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

dezembro


(a ti, Mãe)
"Mãe"_almada negreiros


Pássaro exposto
Aos perigos
Nascido
Do ninho
A voar.

Ponto-a-ponto
Cordão umbilical
Doutro chão.

O primeiro chôro
A cama de colo
E os braços 
De afectos
E o cheiro a leite 
O aconchego materno 
A fome e o calor
Do  amor
Os corpos inteiros
Na transição dos respiros.

Úteros suplentes
E a voz doce
No Tempo
Agora a marcar
A Vida
Nova
Que se recria
Até outra cria.

LuísM_12.12.2017



quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

curta fábula de natal (para os mais pequenos)


queria o poeta saber, o que diria o mar,
dum poema, na areia escrito,
ao luar.

e o mar, no seu leve murmurar,
perguntou ao vento, o que achar,
deste insólito pedido.

este, perguntou às ribas da terra,
o que deveria julgar, 
e a terra disse, que entre ela e o mar,
nada poderia habitar.

e o vento disse ao mar, que na dúvida, o iria apagar.

então, o mar perguntou ao sol,
o que deveria responder,

e este disse:

- por ninguém saber ler nem escrever,
e só de ouvido, gostarem de cantar,
deixá-lo estar...
não vá a lua deixar, o poeta de se inspirar!

e o poema foi inscrito...
...na figura dum coração.




LuísM_13.12.2017

sábado, 9 de dezembro de 2017

o guarda-rios

«Toda a noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma de gente,
Tu és talvez alguém que se finou!...»

Florbela Espanca

guarda-rios, foto da net


*o guarda-rios*

Já não sei
quantos rios foram meus.

As águas formam correntes 
nas veias e dispersam as margens do tempo

Ao largo passam barcos 
carregados de sonhos

E o Solitário guarda-rios
de lodo no cais
faz-lhes sinais para acostarem
e com eles o levarem
mas dizem-lhe que não há mais lugar.

LuísM_09.12.2017

sábado, 2 de dezembro de 2017

mãos sujas

tuas mãos sujas da terra
são mais dignas
que as limpas da guerra.

oh, hastes vergadas em mim
de só baixar a cabeça
a plantar um jardim.

LuísM_02.12.2017


sábado, 18 de novembro de 2017

achamento

“…cuando abrimos los ojos, ellos tenían la tierra y nosotros teníamos la Biblia…”
EG




"El descubrimiento


En 1492, los nativos descubrieron que eran indios,
descubrieron que vivían en América,
descubrieron que estaban desnudos,
descubrieron que existía el pecado,
descubrieron que debían obediencia a un rey y a una reina de otro mundo y a un dios de otro cielo,
y que ese dios había inventado la culpa y el vestido
y había mandado que fuera quemado vivo quien adorara al sol y a la luna y a la tierra y a la lluvia que la moja."
Eduardo Galeano “Los hijos de los días” Ed. Siglo XXI de España Editores – 2012©I ISBN 978-84-323-1627-2

......

"só sei que nada sei"
confúcio
.......

*achamento*

a descoberta
aos olhares
coberta

do que estava
além-mar
e meta

antes sonho
(ou visão) e 
fim medonho

caravelas 
cegas
de vento e velas

e terras
povos
e guerras

e a religião
arma
da expansão

da conquista
e da escravidão

há quem veja
civilização...

ainda 
como outros
sem pedirem perdão.
LuísM  

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

novembro_16



BENJAMIN THOMAS KENNINGTON   

*ao meu amor*

em lugar da flor
o beijo
em lugar do sonho
o desejo
e um sorriso
por inteiro
como se este dia
fosse todo nosso
outro
novamente.

aquele outono
era igual
no calor dos corpos
e no sentimento
a espreitar.

e o mar presente
no teu olhar
despertada paixão
que se fez lar.

(hoje não voltarei ao guincho
para ver o sol guardado do passado... 
mas volto a ti.)







quinta-feira, 9 de novembro de 2017

as horas redondas


ouves a minha voz?
ouves o cantar dos pássaros
nas árvores despidas?
ouves os teus sonhos adormecidos
nas noites sem corpo?
ouves os ribeiros sem cascatas
na secura dos desejos?
ouves o soprar do vento agreste
na pele crispada?
ouves o bater do mar agitado
a cantar tristezas?
ouves o trovão do desespero
a anunciar a desilusão?
ouves as folhas secas pisadas
dos meus passos?

não há aqui nada para alguém 
como eu
a não seres tu
meu meigo e maravilhoso amor...

que dizer da poesia
na manhã inocente
deste dia?

que o sol brilha e
a claridade do olhar
é reflexo da utopia?

- ah, !!!

a chuva seria 
poema
em gotas de alegria

e por tudo
compaixão e companhia

do mais
tudo é secundário.


sábado, 4 de novembro de 2017

horizontes

vejo em cada poema
uma pena
dum pássaro que voa
o destino

e o céu abre-se azul

do ninho, o horizonte
estende o sonho
de quem aprende a asa
do poeta.

(dedicado aos poetas que leio)

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

viagem no sofá


Lágrima
cálida
caída
salgada
sentida
amor
pudor
furor
raiva
suor
ciúme
em alto cume.

Paz
quem a faz?
- tu saberás?

Regaço
abraço
cansaço
beijo
desejo
sinto-o e
vejo-o.

O mar
olhar
parar
ver e
reter
a cor
no sol
a pôr.

Eu
dia
harmonia
coração 
canção
melodia
escrita
à mão
como um trovão
raio de luz
na escuridão.

Mão
a minha
então
carícia
oh ...!
delícia
no rosto
posto
ao luar
hoje a
encantar
o sorriso
teu
riso
a alegrar
o meu calar.

Poema
no teu olhar
tema
(faz-me pensar)
a gema
a cristalizar
nas asas
brancas das
casas e
voo
a planar
quase pássaro
à janela
a entrar.

- vem ...!

aqui
além
pousar
flor de mel
pincel
quadro a granel
tintas
(estou-me nas tintas)
fintas
não mintas
és verdade
nesta cidade
mas ficas
na saudade
da tarde
tempos
curtos
momentos
outros de ventos
fortes
intensos e
foram
imensos.

Melodia
quem diria?
bela
com vela
a navegar
chama
que clama
na escuridão
da tua mão
perdão…
do teu chão.

Oh minha musa
e tão confusa ...
inspiração
de pé p’ra mão.

Abrigo
doce amigo
contigo
livre
de perigo
porto sentido
como tens sido.

A travessia
sabedoria
hoje
há quem não foge
tudo é alforge
onde carrega
toda a refrega.

Peregrinação
nessa paixão
ir ao caminho
partir
pisar carinho
passo certinho
laço
vida e espaço
lado a lado
o nosso fado.

E a flor
sob o calor
meiga de amor
beleza
cor e odor
que vê passar
quase a rasar
dois seres a par
beijando o ar

Ecoam sons
dentro dos tons
e tu repetes 
toque a trompetes
aos meus ouvidos
sentidos
as emoções
nestes serões
a levitar
o que é amar.

- preso ao sofá
que bem se está!


LM_11.fev.2014
(revisto e reeditado)

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

de um a dez...

1
deste cálice 
a transbordar
- bolhas, espuma, líquido -
erótico desejo 
bebe-se o beijo
e sacia-se
o corpo
até à bebedeira.

- não perguntes 
"- porquê?"
bebe comigo!

.....

2
não digas a ninguém
quais os sentidos
que teu olhar contém:

nestas coisas do coração
há sempre alguém
seguindo em contra-mão.

....

3
sei que és tu
no dia
de bruma
na noite
cerrada

e eu
navio sem mapa
navego à vista
desarmada.

.....

4
poe-se o sol
diz-se...
mas não:
sou eu
que giro ao contrário.

......

5
nada acontece
neste dia que entardece
e, no entanto
amanhã
tudo se esquece.

.....

6
já a tarde é finda
e o trabalho feito

a terra repousa
com suor regada

voaram as horas 
e o pensamento

é longa a distância 
da ceia que espera

só os sinos apelam
ao adiado regresso.

.....

7
escrevi-te uma carta
a pensar na ausência
mas todas as palavras
foram escritas ao vento.

amanhã 
ponho-me a caminho
e regresso ao carinho.

....

8
- fala-me de ti
já não te ouvia à muito tempo
estavas aqui
e eu...
longe 
perdido de mim.

.....

9
"final dum ciclo, começo doutro".

este é outro 
o tempo
que já não é nosso
nem do vento.

há um grito ou lamento
de fera 
nos sucalcos da serra
ferida
que ferra
em línguas de fogo
a vida como era.

.....

10
vivi num bairro
onde as ruas tinham cores
no nome e nos amores:
amarela
dos teus olhos à janela
azul
do teu céu no meridiano sul
verde
no salto da idade sem rede
vermelho
no vestido em dobra do teu joelho
rosa
dos nossos beijos escritos em prosa

mas o lugar que eu (adorava) mais gostava
era do Largo das flores
sem canteiros
sem raízes
sem cores
onde descobria outros amores.

.....





quarta-feira, 18 de outubro de 2017

a memória dos inocentes


foto de capa, do jornal "Público", do dia 17.10.2017


“são como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.” 

Eugénio de Andrade

......

memórias

houve um tempo
em que o tempo era nosso
único e por inteiro.

desenhava-se o mundo
ao compasso de cada passo.

era o tempo das memórias:
nos profundos silêncios
alimentavam-se as horas.


  • mas o tempo acelerou

e do registo do tempo
entre línguas de fogo
só as palavras cristalinas sobrevivem.

ardem os ventos aos olhos
crispados 
e na pele cola-se o sal da angústia
das mãos escorre o abandono e a prostração
e o futuro é só uma miragem
tanta e tão forte é a desilusão.

na morte anunciada
há um extinto passado 
na terra queimada.

só as cinzas permanecem
na volátil vontade dos homens.

...e sobre as cinzas
caminha o rosto da nossa culpa.



domingo, 15 de outubro de 2017

morte do rio tejo



seguem os rios sinuosos 
os seus destinos
impertubáveis aos desejos
dos barcos encalhados.

destes
já só o chão é sonho e mar.

mas para os peixes a boiar
nem sonhos, nem desejos:
já a poluição lhes matou o ar.

domingo, 8 de outubro de 2017

1...5


1.- 

já não dói
amor.

esquece
por favor
ou leva aos lábios uma prece
como quem já não padece
e agradece
o momento 
sem sofrimento
qual saciada flor 
que ama com amor.

já não é tua aquela dor
que ouvia em clamor
o que passou...
passou.

aqueles dias sombrios
afogaram-se entre rios
e todas as lágrimas
que algum dia
choradas 
alguém teria
já só são
memórias
na escuridão
inglórias.

deixa p'ra lá
essa tristeza 
que não dá.

abre o coração
e terás à mão
o amor
sem qualquer dor.

o amanhã é já hoje
é futuro que não foge
aos olhos de quem se tem
como outros 
de mais ninguém.

2.-

indiferença

o que dói 
é o olhar ausente
de quem passa
entre a gente
sem calcular
que em qualquer praça
podes ser esse alguém
no seu lugar.

3.-

o que dói 
é a vacuidade da vida:
estar só
sem amigos
(ou inimigos)
e uma fria refeição servida.

4.-

nada é nosso
nem as pedras das serras
nem as terras cultivadas
nem as árvores já criadas
nem as casas abandonadas
nem os caminhos esquecidos
nem os rios poluídos
nem o ar, nem o mar
nem o céu, sem esperar
a morte que há-de chegar.

5.-

"agora tenho medo.
antes, enfrentava o fogo
a querer-me roubar o que tinha.
agora, cansada e sem forças, fujo.
e já só me resta esta velha vida."


domingo, 1 de outubro de 2017

autodeterminação

Catalunha, hoje - foto net


pode o poder 
estúpido e cego
calar a voz
na vontade dum povo?

é na injustiça
e prepotência
que se forjam nações.

"a liberdade está a passar por aqui"

.....

por quem esperei - 
somos "filhos dum deus menor"
(verso e reverso)

1.- 

cavalgar o tempo
a cada momento
dobrar o infinito
no presente fito
qual prado aberto
ao nosso encontro.
e tudo se perde 
em qualquer espera.



2. - 

vem ter comigo 
ao país dos sonhos
aquele outro
o sítio 
dos nossos encontros.

vem pela manhã
bem cedo
antes da crueza da luz 
apagar as sombras  
do nosso lamento
não esperes a tarde
que cedo é a noite 
de tanto tormento
para nós podermos 
ouvir o cantar 
dos pássaros
diferente do poiso 
no seu chilrear.

e
nos olhos cruzados
ver os sorrisos
em voos precisos
sentir
através da alma 
o espelho firmado
que nunca nos mente.

e
quando chegares
bem perto de mim
não espantes o passo 
e dá-me um abraço
a encurtar distâncias
das nossas ausências.

podes perguntar
ao vazio perverso
onde é que eu estive
onde foi meu verso
e
se algum dia
me lembrei de ti
como nós éramos
o que esperavas de mim
dir-te-ei 
talvez
não foi só este o momento 
a pensar em ti.

não!
muitos outros houvera
que mal me senti
e
não sei se sabes
mas o tempo parou
quando
aquela esquina
por mim se dobrou.

deixei de te ver
mal perdi memória
por ter acabado
essa bela estória
que estava tão certa
como o dia da aurora
e
outra houvera
se a tua vontade
fosse outra 
que não
a de partires
sozinha
ao largares-me da mão
contrariando a vontade 
do teu coração.

vem...
Liberdade.

vem ter comigo 
faremos o nosso melhor
e juntos seremos
o que
separados não temos.




quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Equador

desenho de LuísM


Um chão de Mar
Estendido ao olhar
Ao meio do dia
A travessia.

Linha do Equador
Um barco quase a vapor
O 'Quanza' a lamentar
O seu vagar.

E nos olhos da criança
A esperança
Debruçada 
Na âncora pendurada.

E na água prateada
Deste Mar
O menino espreitava
Os golfinhos junto à quilha
Num suave navegar.

(reeditado)


terça-feira, 19 de setembro de 2017

pequeno ponto azul nos confins do(s) universo(s)






misteriosas e estranhas veredas estas que
presas ao tempo colam imagens
fragmentadas
de verdades construídas nas incertezas e nas crenças com que habitamos os nossos medos.

esse tão diminuto grão de poeira onde permaneço
este meu ser, é uma ínfima parte no momento
instante que se faz num querer
tão absoluto.

viver o agora, sem muito pensar no passado
e com o próximo ou longínquo futuro
não estar angustiado
é passaporte para viver despreocupado.

mas tudo o que faço tem influência no futuro
e é nessa perspectiva, sem acreditar
noutras vidas, que não a que vejo e sinto,
que se me fosse dado olhar, dum distante sistema solar, a Terra parecer-me-ia uma frágil poeira no ar.

não há salvadores ou protectores
que nos venham ajudar.

...e só nós dela teremos de cuidar.

[nota: lamentavelmente, continuo com problemas na m/conta e impedido de comentar em blogs do Google.]

domingo, 10 de setembro de 2017

Quem Sois...?

Quem Sois, Senhora, que de meus olhos, tão luminosa beleza, cega minha tristeza?

Vendo-Vos, minha arte é sombra ardente, que de meu lume faço
e de amor trespasso.

Tendo-Vos, em tão vasto sentir, é um todo em parte
é abarcar o mundo num só abraço
e de minha alma voar todo o cansaço.

E sendo Vós tão rara e gentil presença, serve Vosso manto 
de útil e calorosa Benquerença.




a mais doce, a mais terna, a mais bela canção de amor.



quinta-feira, 31 de agosto de 2017

agosto



a meio do dia
já sem lugar
onde se refrescar
o gato segue as sombras
curtas dos beirais

vai com destino
sem dono
de fininho
à procura de luar.



segunda-feira, 21 de agosto de 2017

contra-luz



tinhas o sorriso preso ao olhar
e nesses olhos um pôr-do-sol
a bailar.
junto à falésia e ao fundo o mar
cruzaste o horizonte sentada
entre plantas verdejantes e raios de contra-luz.
não sei o que pensei ou sequer se o mundo era habitável em mim.
tudo ficou suspenso no tempo.
esse tempo dum só momento
dum só desejo.
dum juramento.
só me lembro que se houvesse um paraíso
ele seria aqui.
e nele poderia viver eternamente...


domingo, 13 de agosto de 2017

janela de poesia

Pôs-se à janela
parei, olhei-a e...
casei com ela.
.....

Não sei o que seria
esse olhar sem poesia
mas sei, meu amor
o que sem ti que dor
teria.

Isolo o pensamento
na dispersão do vento
e a mim chegam dias
dos poemas que dizias.

Hoje, tudo é diferente
nessa janela sem gente
de sonhos já tão curtos
e sombras dos nossos lutos.

Que importa tal leveza
se ainda vejo beleza
no dia que amanhece
e na noite que se tece?

basta-me na escuridão
a pequena chama
da vela na mão.


domingo, 30 de julho de 2017

holograma



quisera tão só ser o momento 
que não o do desprendimento.

quisera...
emergir o tacto entre as doces águas 
prender os abrunhosos seios à raiz do pensamento
reter a curta hora no minuto longo do nosso tempo
absorver a tarde clara até ao lusco-fusco da existência
(e gravar, nesse crepúsculo, toda a eternidade)
e por fim, do teu traslúcido  olhar
conservar em boião de olfacto
a noite de luar.

quisera...
mas o céu fez-se chama
e o ar que me tocou
era duma estrela cadente em holograma
que, sem o saber, quase passou,
qual quimera
e logo, logo, se apagou.

(à minha amiga Helena, ausente)

[Nota: Mantém-se o impedimento de publicar comentários noutros blogs, com erro na configuração da conta de e-mail, que não sei como resolver.]


segunda-feira, 24 de julho de 2017

prado de sombras


Neste porto de águas profundas
os embarques são lágrimas caídas
como cerejas no chão amadurecidas
sem ninguém para as saborear.

Sem regresso, partem imagens
de corpos, que fizeram sentido
e, na mais pura solidão
cumprem um destino, nos caminhos
que outros não adivinharão.

São sombras perdidas no prado
onde a luz desliza suavemente
para impedir toda a imortalidade.




segunda-feira, 17 de julho de 2017

passagem




foi tão breve esta passagem
entre vós
tão breve este amanhecer
que o ocaso já se aproxima
como se a vida neste mundo
fosse um só dia de crescimento.

não tive tempo de as minhas palavras

- tão poucas que elas foram -
chegassem ao vosso coração.

valeu a pena, mesmo assim, esta intenção.


se, um dia, casualmente

sentirdes  uma breve e suave brisa acariciando o vosso rosto
pensai que serão essas palavras a tocarem-vos em voos de compaixão.

sábado, 15 de julho de 2017

áfrica a sul

imagina-te prisioneiro
(vinte e sete anos de cativeiro)
condenado na vida, por inteiro
em cela exígua, longe, sem rastreio.

imagina, que o crime julgado
foi por seres negro, discriminado
e todo o teu povo, posto de lado
país onde nasceste e  foste criado
onde a tua voz se tinha levantado
contra a injustiça, pelo explorado.

imagina os muros e barreiras
necessários, que te levassem a criar
para todos os medos a excomungar
sem poderem entrar
e a dignidade por alterar
no trato e nas maneiras de ser
ganhando o respeito dos teus inimigos e transformando o ódio e todos os perigos, em amor pelo próximo.

imagina-te mais forte que todos os exércitos
derrotando-os com estes méritos
expulsando os medos da morte.

pois esse sonho foi real, mas está a ser destruído por outros, como tal.


quarta-feira, 12 de julho de 2017

Helena_ A Última Página


LUTO

QUARTA-FEIRA, 12.07.17



Leninha, por algum desses mistérios da vida, você sabia que estava partindo e quis preparar o meu coração, mas eu me recusei a ouvir as palavras que me queimariam como fogo, pois não queria aceitar que iria perder um pedaço de mim. Ainda ouço a sua voz a me orientar, a pedir, a explicar tudo que eu deveria fazer quando você partisse. E enquanto você falava eu apenas fiquei olhando o seu rosto tão suave, os fios do teu cabelo louro começando a crescer, gravando na minha alma a sua expressão e os seus lindos olhos verdes. Para sempre vou me lembrar da sensação que senti quando você me abraçou bem forte e falou: obrigada Veruskinha por tudo que fez por mim nesta vida.
Minha Leninha, eu nada fiz por você além de aceitar com muita gratidão as coisas maravilhosas que sempre me chegavam através da sua bondade, do conforto de seus conselhos, de suas palavras sempre cheias de carinho. Se fiz alguma coisa foi simplesmente amar você com aquele amor infinito como se ama uma filha do coração e estar sempre pedindo a Deus pela sua felicidade.
E quando você se foi, eu só conseguia sentir que estava perdendo uma parte de mim, e as lágrimas só receberam consolo por saber que você estava feliz, pois sabia que iria encontrar os seres amados que já haviam partido. E eu fiquei imaginando a festa que eles fizeram com a sua chegada e tolamente me lembrei daquela famosa frase do Pequeno Príncipe:
“Quando olhares o céu de noite, porque habitarei uma delas, estarei rindo, então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem rir!”
Para mim você será como uma estrela que vai me sorrir em qualquer parte do céu que eu olhar, pedindo um conselho ou apenas matando as saudades.
Vão ficar muitas das nossas histórias guardadas na minha memória, a me lembrar a falta que sentirei de você, minha amiga e irmã querida, minha "filha" tão amada.
Atendendo o seu pedido aqui estou encerrando o seu blog, apagando as postagens anteriores. Desculpe não ter seguido apenas a orientação de deixar um vídeo com uma das músicas que foi tema do seu casamento, a Ave Maria, pois eu senti necessidade de escrever estas palavras.
Daqui a algum tempo eu prometo apagar a minha mensagem e deixar apenas a música que você tanto gostava e que representava uma união de amor.
Agora eu me despeço de você, Leninha querida, e vou buscar um pouco mais da sua presença cumprindo todas as outras orientações que você me deixou, do jeitinho que você gosta, com capricho, com amor, com dedicação. Porque você era também isto, minha menina, uma perfeccionista em tudo que fazia.
Que Deus a tenha sempre na Sua Santa Paz.
Da sua, sempre sua,
Veruskinha




DE helena ÀS 13:58