quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

solidão no Tempo esquecido

Foto: Net (Lurdes Alves)

(inspirado na imagem)

uma parede esventrada
no reboco esfarelado
e uma janela de Fado
com o sol na entrada.

uma vida de espera
a cismar outra era
e a juventude escoada
por dentro da sacada.

olho este vivo retrato
como se fosse solidão
servida no único prato
que o amor tem à mão.


sábado, 21 de novembro de 2015

o mar

Foto: LuízM Castanheira_Ribamar  



o mar donde nascemos, não cuidamos
e não sabemos...
que por mais que o amamos
ao matá-lo, morremos !




Marcus Eriksen/Reuters /Jornal "Público

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

gestação

Museu da Cidade_Lisboa



mãe
minha mãe, quando eu nascer
não quero ver
não quero ver
esse teu rosto, lindo
a padecer.

oh minha mãe, quando eu nascer
deixa-me olhar-te
e um beijo dar-te
porque mereces
por tantas preces
em me conceber.

minha mãe, quando eu nascer
quero só ser
quero só ser
o teu menino no teu viver
sentir o cheiro
do teu suor
sentir o labor
de tanto amor.

minha mãe, oh minha mãe
quando eu nascer
dou-te um sorriso
em recompensa
de tanto em querer
um filho ter.

E, mãe querida
se adormecer
sara-me a ferida
por não nascer.



sábado, 19 de setembro de 2015

fado sempre retido




trago comigo o sentido
dum sonho nunca perdido
trago comigo a razão
dum barco a navegar
trago comigo tanto mar
fechado na minha mão.

trago comigo o desejo
no encontro do teu beijo
trago comigo o teu rosto
dum suave deslumbrar
trago comigo tanto amar
como o vinho ama o mosto.

trago as areias ao olhar
e as ondas que há no mar
trago búzios aos teus ouvidos
para me poderes escutar
trago comigo o luar
nos caminhos desferidos.

e para te querer tanto bem
como não há outro alguém
é porque o mereces também.

lmc




sábado, 8 de agosto de 2015

Exéquias da rosa







Luíz Fernando Regalheiro Henriques




Pétalas de neve poisam sobre o teu corpo ora adormecido
Na hora escolhidas pela singela e simples beleza
Como a vida que tiveste, espelho agora quebrado
São amores que levas de quem outros amores espalhaste
E aquela ex-aluna expressava-te a sua serena homenagem:
“quero uma rosa simples porque também ele era uma pessoa simples”.

Meu amigo,
Como eu gostaria de ainda poder contar contigo…
Dizer-te o quanto é sentida esta ausência que tanto me aflige
Contar-te dos meus sonhos, aqueles que não pude partilhar
Ouvir o que terias para me enriquecer
Falarmos de tantas coisas que ficaram por dizer… 
(Da música, da poesia, dos animais ou dos cactos)
Mas o tempo e a distância acabaram por as perder
 
Porém, ouvi o teu coração.

Chamei-te Monge porque assim era a tua pureza
Mas Cuidador com toda a certeza era e foi a tua missão
Essa missão cumprida até à exaustão.

Descansa agora porque partiste em paz.
(homenagem a LUÍS FERNANDO REGALHEIRO HENRIQUES)
N. 1944.Nov.10 - F. 2015.Jul.20

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

leve como o ar que respiramos

meu amor

queria escrever-te uma canção
simples, doce, única e cheia
que cantasse para nós esta teia
ligando o amor de mão em mão

meu amor

como é brilhante a fantasia
de caminhar entre as estrelas
devorando longas distâncias
e olhar só para ti, sem vê-las
só em ti mergulhar o meu olhar
nesta solidão nossa a vaguear
nesta procura incessante de te amar

oh, como seria belo tal acordar
na manhã do nosso contentamento
no espairecer do calor de tanta cor
no cântico silvestre duma ave
ou no riacho incessante e cristalino
dos teus olhos nos meus a mergulhar

hoje, reparo em ti como da primeira vez
em que te vi:  serena, altiva e cativante
como só pode ser o desejo dum amante

porém, dessa música imaginaria nada sei
e da letra a escrever nem um refrão
sai da minha mão, apesar desta paixão
na voz embargada de emoção, calam-se
os sons, no branco papel da criação
restando o silêncio ente nós como lei

meu amor 

fica só esta minha intenção tão leve
como a brisa a refrescar a tarde quente
ou o cair de uma folha na suave neve
de a ti chegar o que o meu ser sente.



setenta anos

6 de agosto

fazes anos, meu pai, amanhã 
num dia que para ti seria alegria
mas para outros já amanhã 
não haveria. lembro-me sempre
e em cada ano fico alegre e comovente
mas também triste por teres nascido
na data em que o mundo parecia perdido.


crianças de cristal

terra do sol nascente
foste poente
na loucura de muita gente.

quantas crianças de cristal
desapareceram nesse vendaval?


outro sol

o sol brilhante faz-me lembrar outro amante
aquele que olhando a terra queimada
só vê a ausência volatilizada da sua amada
na penumbra nuclear devastadora e penetrante.


hiroshima_nagasaki

amanhã, 
seis de agosto
setenta anos já passados
e no meu rosto
há ainda cicatrizes 
de outros.







quinta-feira, 2 de julho de 2015

canção de amor





Partiste, meu Amor, manhã nascida
nessa manhã onde cedo me levantei
- solidão imerecida - 
quando por tu não estares eu acordei
e era azul o céu de tanta luz
e era verde o mar de tanto o olhar
(onde a ti nada me conduz)
só dentro de mim o infinito em te procurar.

Atravessaste as horas da aurora na partida
meu Amor
nessa manhã clara em mim sombra estendida
e das encostas da serra a neve enlouquecida
corria
desenfreada, fera enlouquecida
gemia
como se fossem lágrimas tuas, meu Amor
do desencontro que nos feria.

…e lá no cimo da montanha eu via
a presa com olhos teus em agonia.


LM_02.jul.2015


segunda-feira, 8 de junho de 2015

sombra, silêncio e dor

sombra, silêncio e dor:
sombra descida de pavor
silêncio para ouvir todos os ais
e a dor persistente dos demais

há agora uma nova guerra
como sempre houve noutra era
há um chão pisado por chacais
e um rio crescente de animais

uma floresta feita de pinhais
e de espinhos cravados e letais

uma obscura ideia de conquista
e duma paz duradoura já à vista

há um cheiro nauseabundo de ideias
que vão construindo novas teias

há o sofrimento de quem cala
e o grito revoltado de quem fala

há tudo isto e muito mais...
na paisagem que outrora era sã
onde na relva dançava minha irmã
sob o olhar protector dos seus pais

há um mundo diferente no olhar
um caos habitante onde antes era lar
uma fuga para a frente apressada
e  no rosto desolado, estampado
o sofrimento a marcar a passada

foge-se da fome, da guerra e da incerteza
foge-se da terra, das gentes e da leveza
com que morte ronda o que antes foi beleza
foge-se ao encontro da tristeza...

e a europa ali tão perto (que deserto)
dos passadores fingindo amores
e as vidas cativadas bem por perto
longe de tudo, longe dos horrores

somos assim... olhamos o mundo
na nossa consciência adormecida
com oceanos perdidos e sem fundo
onde sangra a vida em profunda ferida.


quinta-feira, 16 de abril de 2015

sombras em Abril


Gente de cara fechada
olhos na vida, zangada
cruza espaços falhados
passeia-se na Primavera
qual tarde que já não espera
sorrisos de tempos passados.

Que fizeram ao sonho de quimera
dessa outra Primavera?

2015_ "Campera"


domingo, 12 de abril de 2015

horizonte perdido

foto Net


sobre o oceano corre a matriz duma vida 
lambendo as fragas agrestes da madrugada
lá longe há um horizonte de costas voltadas
e por cima do sonho fica a memória perdida
na ilusão da onda, ora vinda, ora recuada
que deixa o sabor acre nas coisas amadas.

nas margens, dois continentes antes tocados 
vão-se afastando, suavemente, do mesmo lado
como dois amantes, antes felizes, ora zangados

deixando uma linha limitadora do comum Fado.



sábado, 21 de março de 2015

um Poema feito meu | Dia da Poesia

Vieram de longe até mim
cantando estrofes sem fim
as palavras alinhadas
nascidas e rabiscadas
num caderno pautado
e na margem furado
como se fosse um jardim.
E o seu perfume dourado
espalhou-se pelo prado
em cantos de louvor
onde só havia amor.
A Poesia nesse dia
nasceu
e fez-se dia 
fez-se naquilo que sentia
e eu ouvia...
ouvia, tão intensa a leveza 
a sua tão firme certeza
que não mais era que pureza
Estava ali, como por acaso
brotando do chão lavrado
não se sabe por qual arado 
com sabedoria e destreza.
E o Poema crescia
nas mãos de quem tanto o queria
de fazê-lo como seu 
e sua única companhia
eu.
E eu..., deixei o Poema voar.
das minhas mãos ele partiu
na manhã, antes do dia acabar...




quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

agora


Queria ser espuma e fui vento
bati as ondas, rasguei os céus
queria ser luz e fui sombra
dobrei-me sobre mim mesmo
queria ser grito e fui lamento
perdi o sentido em sofrimento
queria ser rua e fui esquina
contrariando a minha sina
queria ser mar e fui luar
sem saber por onde andar
agora
caminho num passo lento
e aos meus olhos tudo demora.