domingo, 5 de agosto de 2018

canícula


as noites quentes do desassossego
entravam pelos olhos
pesados das horas
as cegonhas tinham partido
na busca de estrelas caídas
e o esquecimento dos caminhos perdia-se
no emaranhado dos sonhos
os pontos cardeais eram todos iguais.
lá longe
o sul pedia insistente a pureza das águas
onde nascentes molhassem
os pés descalços da terra.
já as rosas eram figuras de porcelana
em jarras temperadas no tempo
e corriam poeiras em voos rastejantes
como se não encontrassem lugar onde poisar
por vezes sangravam:
lembravam os vivos da carne e os ossos cansados
os músculos definhados.
os cheiros de suor putrefacto varria o ar em brisas doidas
como se quisessem cantar
e o mar reclamava naufrágios
com que pudesse brincar.
a loucura era tão suave que por ela não se dava
pairava
(como esse pó que não encontrava lugar)
pressentia-a.
as pálpebras desciam e subiam ao som interior do pensamento
e as marés deixavam rastos de luas prateadas
em espelhos d'alma.
por vezes uma ténue luz espreitava
entre buracos de assombração
e as sombras esqueciam a orientação da sua razão.
caiam aos pés da cama com medo da solidão.
pendores e nichos formavam paredes erguidas
em cores ocultas pela dimensão
os peixes nadavam em estáticos quadros
assim como cavalos corriam em prados planos de chão
doidos varridos com relinchos
que estremeciam o coração.
tudo era fantasmagórico
e a casa era louca
mais louca que a falta da razão
virada do avesso
com janelas no tecto
e cortinados esquecidos a servirem
tapetes.
o receio de espreitar para fora
tomava forma
um mundo ao contrário esperava
a difícil compreensão...
entrei numa porta entreaberta para o vazio
onde um céu pintado fazia do quadro
uma apelativa visão
uma chamada em salto
em asas de ilusão.
aí acordei e dei
por mim sem saber
se saí ou entrei...

lm_05.ago.2018


1 comentário:

  1. Um imaginário lindíssimo a fazer deste poema, um belo momento de poesia, meu Amigo Luís.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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