sexta-feira, 13 de julho de 2018

no teu poema

[...] É nos olhos dos mendigos
que a noite se prolonga por mais tempo." 
in: "Marginalidade", Poemas Escolhidos 1990-2011, Graça Pires.

(Nota: Do Poema, acima referido, destaquei este último verso.
E só ele - quanto a mendigos -,  foi inspiração.)

No teu poema há uma dor que não se alcança
Um qualquer sinal quase de esperança
Uma mortalha que cobre sonhos de quem falha
Há um verso que aflora o sentido pela vida fora
Como se uma linha prendesse  a escassa hora
No teu poema há emoção de quem olha
A solidão posta à mesa e cama feita de chão
No teu poema existe o vazio feito de noite
Sem horas que marquem destinos
e mãos caídas de carinhos

No teu poema, amiga, há tudo o mais
que quero ver e não é demais.

lm_13.jul.2018

......

*ainda a noite no olhar*

nuvens escuras no olhar
tapam sonhos 
com mantos de orvalho
cabelos sem luz 
e brilho perdido. 

servem-se sorrisos 
apagados
de quem  segue apressada 
dobrando esquinas 
esquecendo visões
perdendo pausas
com que se aliviam dores.

são passeios com gente 
atravessando manhãs
cruzando ruas
em esperanças vãs.

e a noite já foi
só uma lembrança
vaga
esquecida
ao acordar da casa: 
a rua
fria e nua. 

há um vazio nos ossos
tristeza nas mãos
crispadas
abandonadas
à crónica solidão. 

nada mais importa 
além do respirar
sem qualquer esforço 
de querer pensar. 

todos os passos 
são do mesmo lugar:
andam parados
a arrastar horas
a pisar chão 
nos raros relógios
da emoção.

todo o passado é escrito 
numa simples folha
amarrotada
quase esquecida 
pelas sujas mãos 
e serve de lenço
guardado tesouro
com gestos escondidos
nos bolsos caídos
vazios 
de sol e luar.

aos ventos serão
varas dobradas 
vagos pensamentos
memória presa
o corpo dorido
e alma ferida.

não vêem televisão
nem estrelas
nem políticos
nem um simples discurso
a prometer 
um qualquer milhão.

não levantam os olhos 
agarrados ao chão.

tudo se resume a:
uma sopa
uma arcada
uma cama de pedra
e um cobertor de cartão.

são os mendigos da cidade 
entregues a si próprios
e a alguma caridade.

lm_02.ago.2018

7 comentários:

  1. Luís,

    Muito belo e profundo o seu poema (no mergulho da
    grandiosa poética da Graça Pires) que numa ponte
    da identificação poética, ecoa a chamada:
    "[...] É nos olhos dos mendigos
    que a noite se prolonga por mais tempo." 
    E assim:
    "Há um verso que aflora o sentido pela vida fora
    Como se uma linha prendesse  a escassa hora
    No teu poema há emoção de quem olha"

    Parabéns aos dois poetas: Graça Pires e Luís Castanheira,
    com seus talentos poéticos nos oferecer esta
    preciosa leitura.

    Feliz final de semana, amigo Luís!
    Um beijo.

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  2. Profunda dor que alonga a noite e resvala em bela poesia. Gosto de encontrar "Um qualquer sinal quase de esperança"
    Tocante, queridos poetas: Graça Pires e Luís Castanheira.

    Beijos.

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  3. Aos amigos da Leninha: quando tiverem oportunidade, por favor, façam uma visita ao seu blog (helena.blogs.sapo.pt), pois lá deixei uma postagem que diz respeito a todos os seus amigos blogueiros.
    Atenciosamente,
    Vera Lúcia

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  4. De repente, Luís, tocaste em tantos pontos que esse verso que escolheste (e agradeço) podem abarcar, que fiquei confusa comigo mesma… e contigo…
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  5. Amigo, Luís; que belíssimo "desenrolar" a meada das palavras de uma grande poetisa!
    "No teu poema há uma dor que não se alcança", mas alcançamos a plenitude do sentir que, pelas vossas mãos, nos são mostrados.
    Parabéns a ambos, a poesia tem esta beleza, deixar-nos mergulhar no mundo do outro e recolher as pérolas que lá se encontram, e que, não sendo nossas, podemos tocar e apreciar.

    Beijo de luar

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  6. uma hora mágica de inspiração em Graça Pires, fez com que este poema transbordasse e digo que gostei tanto que a emoção tomou conta de mim.
    parabéns
    beijinhos
    :)

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