quinta-feira, 19 de abril de 2018

sem título

porque te olho nesse vagar
das horas escondidas?
porque vens embarcada nas
palavras 
em vagas de luares?

já não há sombras quando me dizes "temos de falar".
oiço-te com búzios nos ouvidos
e sonhos no bolso.

deste teu mar, sem fim
acaba de chegar a carta inacabada
sem tempo, sem destino, sem sequer  um adeus
como se o amor fosse uma praia deserta à espera do furacão
e todas as árvores se dobrassem
fustigadas 
ao sabor das causas perdidas.

deixa-me o chamamento 
que gostaria de te ler
ou dos teus desejos um balde de areia
para castelos meus poderes pisar.

brinco as sílabas no arranjo duma criança
para das formas fazer sentido
e construir com esse papel
um barco a navegar 
inclinado ao sabor dos ventos
no lago que o há-de afundar.

já não quero embarcar.

toda essa viagem seria um destino
mais sombrio que as profundezas do mar.
todas as emoções seriam gelo derretido nas calotas polares.

nada sentiria, nem mesmo o meu próprio respirar.

manda-me outra carta para eu aprender-te a amar...

LM_19.abr.2018

4 comentários:

  1. Que poema de esperança quase sem esperança, amigo Luís. E que poema lindíssimo de um sentir profundo, ainda que magoado, de um coração que bate mas que quer "aprender a amar", um amor novo, uma forma nova - uma renovação.
    Embarcar é preciso, para não desaprender de navegar, ainda que "todas as emoções sejam gelo derretido nas calotes polares", vale sempre a pena (re)aprender a amar.

    Beijo de luar e bom fim de semana meu Amigo.

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  2. Caro Luís Castanheira.

    um daqueles poemas que se lêem várias vezes
    devagar para saborear todas as palavras

    estou certo ser irresistível este Poema-carta -
    - muito bem endereçado.

    forte abraço, meu amigo

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  3. Um poema com endereço à espera de resposta, "como se o amor fosse uma praia deserta à espera do furacão
    e todas as árvores se dobrassem
    fustigadas
    ao sabor das causas perdidas".
    Li e reli. Até pensei que já tinha comentado. Gostei muito.
    Um beijo, meu Amigo.

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  4. Boas memórias neste chão de cravos
    Abraço

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