sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

o barqueiro

Tinha as mãos calejadas da enxada.
De vez em quando, esta desencavava-se. 
Batia com o cabo e o olhal numa pedra, das muitas que teimavam em aparecer por entre o monte de terra, ali, ao lado, pesada pela chuva da véspera.
Do nariz aparecia alguma humidade da idade e das noites frias. 
Os dedos serviam para o limpar. Sacudia para o chão restos que não desejava, mas sem demonstrar vergonha.
Também as calças de treino, vermelhas e muito coçadas, caíam com os movimentos dos braços, já nitidamente cansados. 
Puxava-as para cima, enquanto endireitava as costas. 
Aproveitava essas pequenas pausas para descansar um pouco.
Sentia-se, pela respiração arfada, a idade avançada.
Aos poucos lá foi tapando aquele buraco.
Não estava sozinho. Mas só ele laborava.
Muitas pessoas em redor, esperavam, pacientemente, o fim deste último acto, em homenagem a quem partia. 
Sendo aqui, a última morada.
Peguei numa moeda e dei-lha.
Era o pagamento ao barqueiro que, para a outra margem, transportava uma alma.
Era o coveiro.

LM_02.jan.2018

Nota adicional: Este é um texto não ficcional. É das últimas imagens retidas, entre a mágoa e a compaixão, ao acompanhar o funeral dum Amigo e foi escrito no próprio dia, tal qual aconteceu. Um drama vivido e muito constrangedor. Aqui fiquei até ao fim, à cobertura por flores, no apoio da família, dele e minha.

Paz à sua Alma!

5.jan.2018

7 comentários:

  1. Ainda hoje em dia nos campos do Alente e Ribatejo, entre outros, se cava a terra com a enxada, Este temos leva-me aos meu tempos de criança e terra Ribatejana onde nasci e vivi até aos 11 anos.
    .
    Querendo, visite e leia o que ( mal) escrevi.
    .
    *Amor:- Exaltação aos desertos do mundo *
    .
    Votos de um Sábado feliz

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  2. Pai, és único!!
    Que texto soberbo


    E numa pausa da rotação da Terra, olhei-te,
    Destacavas-te de todos, num lugar improvável...de olhos pousados no horizonte num tom sereno de sabedoria que tanto te caracteriza
    De mãos no teu sobretudo, com o vento a acariciar as abas deste, e o sol a aquecer-te as costas
    Revi o filme cidade dos Anjos, quando todos se encontravam beira mar...para escutarem a melodia

    E eu soube, como se dúvidas restassem....

    És o meu guardião de Alma na Terra!


    Amo-te, pai ❤

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. A moeda entregue ao "barqueiro de Caronte". Uma imagem de um realismo impressionante!
    A última viagem, que se faz à força dos braços de uma alma alquebrada pelos anos.

    Uma homenagem a um homem que, quase sempre, passa despercebido nos momentos de dor, mas que encerra, com o seu trabalho, a última viagem de alguém.

    Belo texto, amigo Luís, como sempre.

    Beijo de luar

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  5. JLC

    muito comovente...e saio em silêncio .

    boa semana.

    beijo

    :)

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  6. Uma homenagem muito comovente e muito sentida. Com um poema descritivo que me fez ver tudo o que estava a acontecer...
    Uma boa semana, meu Amigo.
    Um beijo.

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  7. A terra cavada com as mãos
    do poeta

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