quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

por este mar....

1.

*da génese do poema*

e por vezes nada mais resta
senão, deixar correr as águas. 

onde uns vislumbram céus
azuis do poema 
outros vêem clareiras cinzentas 
de amargura

e, no entanto

o poema nasceu 
dum simples fonema
de pensamento germinado
e tomou um qualquer caminho desenfreado
na vontade de crescer 
e tornar-se acarinhado
não indesejado...

como embrião
tomou-lhe vida
cresceu diferente
independente
liberto da criação
e de quem lhe deu a mão.

lê-se o poema 
num espelho de emoções e
sílaba a sílaba
constrói-se a imagem
com o ângulo de luz 
que cada um quer direccionar
ou, então, perde-se
no emaranhado mapa das palavras
tão ilegíveis são as suas constelações.

.....

2.

este não é o tempo
não é o momento
de fechar os olhos
de travar o vento
de prender a mente.

este é o tempo
de deixar voar o sentimento.

......

3.

*a bailarina*

rodopia a silhueta na crítica sustentabilidade da linha
e, a asa aberta, em círculos
voa rente ao chão musical
como se pomba branca
quisesse poisar.

e a beleza torna-se intemporal.

......

4.

são horas de esquecer todos os relógios
de apagar todas as sombras
e de caminhar com os olhos cerrados ao passado.

são horas de não mais voltar atrás.

.....

5.

incontestável desejo
na asa do ninho
no voo sem escola
na liberdade do beijo.

a casa na duna
e a porta aberta 
ao dourado poente
e  verde mar
no limite do sonho.

e tu, em contra-luz.

....

6.

esta mágoa 
que em lume brando arde
das guerras já devoradas
nas ausências incontidas
nos despojos conquistados
e das feridas por sarar.

e tudo se perdeu
todo o turbilhão de paixões
foi um vendaval de ilusões
foi um dar-se sem razões
uma qualquer acendalha
que na fogueira das vaidades
se apagou antes da fornalha.

ficou só esta mágoa que perdura para além das cinzas de ternura
varridas para longe da memória.

.....

7.

a pior demência é aquela que não se vê
mas, quase o mesmo será vê-la e não reconhecê-la.

este mundo é um manicómio
onde não cabe mais ninguém.

(a propósito da II temporada da série "uma aldeia francesa")

......

LM_25.jan.2018

5 comentários:

  1. Deixar correr as águas para encontrar a linha do poema. As palavras têm asas, têm ritos. São um excelente exercício poético...
    Uma boa semana, meu Amigo.
    Um beijo.

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  2. O poema nasce dentro de nosso ser, basta dar-lhe atenção e ele brota para fora...
    Gostei de aqui ter passado
    Abracito meu


    Cidália

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  3. Olá, Luís!
    Por este maravilhoso mar poético fui navegando... e apetece-me voltar.

    Beijinho.

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  4. gostei destas palavras
    dizer qual a que mais me tocou é difícil
    todas tem a sua mensagem
    parabéns meu amigo
    beijinhos
    :)

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  5. Meu amigo Castanheira, de volta estou, depois de um mês e tanto de férias em local sem internet. Eis em seus versos a grandiosidade de um poeta português em que navegar é preciso e a sobrevivência (como fez Camões) necessária para poetizar. Lindos conteúdos de tuas mensagens! Precisão nos ritmos métricos e imagens da navegação portuguesa explodem numa beleza rara de poesia e musicalidade. Parabéns amigo! Ali só faltou o vinho. / Claro: o vinho português / Do Douro ou Gaya talvez / Ou talvez um Alvarinho... / Ergo a taça ao meu vizinho / Castanheira e de vez / Sorvo-o como bom freguês / Que nunca bebe sozinho. / Saúde, prezado amigo! / Eu sorvo o vinho contigo / Num brinde à poesia / Que o amigo Castanheira / Prossiga nessa carreira / Escrevendo ou que eu leria. Grande abraço, amigo! Laerte.

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