quinta-feira, 30 de março de 2017

Carta Aberta a um pequeno homem -Jeroen René Victor Anton Dijsselbloem


DijsselbloemPresidente do Eurogrupo


 Carta Aberta a Jeroen René Victor Anton Dijsselbloem - (um pequeno homem) - Presidente do Eurogrupo


Caro Anton Dijsselbloem

Li nos seus lábios a afirmação, reconfirmada mais tarde, de que
"Não se podia gastar o dinheiro em mulheres e aguardente e, mais tarde, virem pedir ajuda".
Referia-se, sem dúvida, entre outros, ao meu País, Portugal.
Foi um insulto o que saiu da sua boca.
E não há, nem houve lugar, da sua parte, para se retratar de tamanha vileza e ofensa.

Posso-lhe desculpar o carácter, a educação, a estupidez.
Só não posso desculpar-lhe o sentido do seu pensamento.

Sim, porque é realmente isso que você pensa.

É uma mente xenófoba, sexista e reaccionária, em pleno século XXI.
E isto vindo dum social-democrata que se diz progressista.
Foi bastante grave o que disse, pensou e manteve.
Merece reparo e condenação.
Deve tirar daí todas as consequências, políticas e cívicas, demitir-se do cargo que ocupa no seio da comunidade de países do Euro e voltar para casa onde, de certeza, encontrará ambiente mais propício aos seus conhecimentos académicos e políticos, e ir plantar nabos.
E para isso nem precisa de mestrado.

Há dias assim, meu caro, onde o que nos vai na Alma, acaba por sair da boca para fora.

Só que de si, o que saiu foram palavra de merda, tão mal-cheirosas na aversão e cinismo com que as pronunciou.

Talvez houvesse uma ponta de verdade na construção do seu pensamento quanto à forma como utilizamos os apoios comunitários, desde a adesão de Portugal à ex-CEE:

Gastámos o dinheiro em pontes e estradas, para importarmos bens que vocês produzem;
Gastámos o dinheiro em abater a frota de pescas, para deixarmos de pescar;
Gastámos o dinheiro em destruição do tecido industrial (metalomecânica, siderurgia), para termos de importar;
Gastámos o dinheiro em abate da vinha, para não nos embebedarmos em eufuria com a 'festa';
Gastámos o dinheiro em corrupção, nos apoios da PAC, para nós invadiram com produtos agrícolas, a baixo preço, até terem o mercado nas mãos, e a nossa produção destruída.

Poderia dar-lhe mais exemplos de dinheiro 'oferecido', mas seria sempre 'um almoço não grátis'.

Esta foi a vossa ajuda.

Eu sei que desde a Reforma e Contra-Reforma alguma élite holandesa se acha puritana e superior;
Sei que olhavam os católicos do Sul
como os pobres onde todos os vícios existiam;
Sei que até os vossos famosos pintores retratavam esse desprezo;
Sei o quanto vos combatemos, para eliminar a pirataria instituída que nos faziam;
Sei das cidades que vocês incendiaram, no Brasil, para tomarem posse daquele território, rico e invejado;
Sei da derrota que sofreram ao tentarem invadir, São Paolo de Assunção de Loanda;
Sei que ficaram com possessões a Oriente, onde fomos derrotados;
Sei da Inquisição instalada em Portugal, a pedido do Rei, para defender o Reino, ameaçado pela vossa Religião, onde até nomeou o seu irmão para Inquisidor-Mor;
Sei do Marquês de Pombal ter expulsado do Reino Português os Jesuítas, que em grande parte foram para os Países Baixos (ironia do nome) e vos enriqueceram;
Sei do apoio que deram aos movimentos de libertação das antigas colónias portuguesas, em África, e ao mesmo tempo faziam negócios com o Regime Português.
Só não vendiam mais carros e outros equipamentos, porque não os produziam;
Sei que o vosso fito é a riqueza e quem é rico, tem valor e quem é pobre, merece desprezo;
Sei que bebem para se embebedaram até caírem de cu, enquanto nós sabemos beber, às refeições e para esquecer;
Sei que as vossas putas estão em montras, a maioria vinda de Leste, e os clientes são vocês;
Sei que falam uma língua híbrida, mas pode usar o tradutor da Google e compreender o que lhe escrevo. A minha língua é mais antiga;
Sei que indicou no seu curriculum um Mestrado que não tem. Nós também os temos por cá aldrabões, trapaceiros, corruptos, ladrões, entre políticos e banqueiros;
Sei que a vossa praça financeira capta a riqueza do meu País, onde se instalaram 19 das 20 empresas da bolsa de Lisboa (PSI-20)
Sei que é um desiquilíbrio na Europa dos 27, desleal e... um paraíso fiscal;
E sei que o dinheiro que nos emprestaram o estamos a pagar com sangue, suor e lágrimas, pelos juros malditos e agiotas, a que nos obrigaram.
E com a condição mais gravosa, ainda, de vendermos em saldo, ao desbarato, as melhores jóias que restavam: bancos, energia, seguros, aeroportos...

Obrigaram-nos a empobrecer ainda mais.

Por isso, pergunto-lhe: quem ajudou quem?

Mas também sei que pertence a um grande Povo, dum pequeno País, infelizmente com gente dentro, pequena, como pequena é a sua mentalidade.

Aqui fica esta carta e que lhe faça bom proveito.

Nota da sua biografia:

"União Europeia

Período21 de Janeiro de 2013 -Antecessor(a)Jean-Claude JunckerVidaNascimento29 de março de 1966 (50 anos)
Eindhoven,  Países BaixosDados pessoaisPartidoPvdA

Jeroen René Victor Anton Dijsselbloem (pronúncia aproximada /dêissel-blum/; Eindhoven, 29 de março de 1966) é um político neerlandês do Partido do Trabalho. Atualmente é Ministro das Finanças dos Países Baixos e presidente do Eurogrupo.

Como membro do Partido do Trabalho (Países Baixos)|(Partij van de Arbeid), centro-esquerda, é Ministro das Finanças dos Países Baixos desde 5 de novembro de 2012 no governo presidido por Mark Rutte. Foi deputado do Parlamento dos Países Baixos entre 2000 e 2012 (com uma interrupção em 2002), concentrando-se em questões de cuidados de juventude, educação especial e professores.

Jeroen Dijsselbloem estudou economia agrícola, com foco em economia empresarial na Universidade de Wageningen (1985-1991). Terá realizado investigação na área da Economia Empresarial, no University College Cork, na República da Irlanda (1991), com o objectivo de obter um Mestrado, sem no entanto o concluir.  Apesar de não ter concluído os estudos deste curso de Mestrado, entre Novembro de 2013 e Abril de 2014, o grau de Mestre constou da sua biografia oficial, até o mesmo ser desmentido por parte do University College Cork e da National University of Ireland.

De 1993 a 1996, ele trabalhou para o grupo parlamentar do Partido Trabalhista neerlandês e de 1996 a 2000, trabalhou no Ministério da Agricultura, Natureza e Pescas. De 1994 a 1997, foi membro do conselho municipal de Wageningen.

Jeroen Dijsselbloem é desde janeiro de 2013 o presidente do Eurogrupo.

Polémicas

Comentários sobre os países do sul da Europa

Em Março de 2017, poucos dias depois do seu partido ter sido copiosamente derrotado nas Eleições Gerais Holandesas, Dijsselbloem declarou ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung  "não se pode gastar o dinheiro todo em copos e mulheres e depois pedir ajuda", referindo-se aos países do sul da Europa afectados pela crise da dívida pública da Zona Euro. A 21 de Março, numa audição no Parlamento Europeu, recusou-se a pedir desculpa pelas declarações.

Estas palavras deram origem a reacções de indignação por parte de vários responsáveis políticos de alto nível de vários países europeus e de diferentes famílias políticas. Gianni Pittella, líder do grupo socialista no Parlamento Europeu (ao qual o partido de Dijsselbloem pertence) disse que "não há desculpas nem razões para usar linguagem desta, especialmente para alguém que supostamente é um progessista". 
Também o líder da bancada do Partido Popular Europeu, Manfred Weber, criticou o holandês, referindo no twitter que "a Eurozona é responsabilidade, solidariedade mas também respeito; não há espaço para estereótipos".
O Primeiro-Ministro de Portugal, António Costa, disse que "numa Europa a sério, o senhor Dijsselbloem já estava demitido neste momento; não é possível que quem tem uma visão xenófoba, racista e sexista possa exercer funções de presidência de um organismo como o Eurogrupo". O antigo Primeiro-Ministro de Itália, Matteo Renzi, também defendeu a demissão de Dijsselbloem, dizendo que "se quer ofender Itália, devia fazê-lo num bar, e não no seu papel institucional"."

in: wikipédia

4 comentários:

  1. Amigo Luís, digo apenas; Carta a um pequeno homem, que nem Homem sabe ser. É quase uma afronta aos Homens, dizer que este -ser - o é.
    Beijo de luar, resto de boa semana.

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  2. Luis, meu querido, uma flor pode conter o paraíso, sem calor, sem frio, sem dor. Apenas a exalar o seu suave perfume, a enfeitar com suas delicadas pétalas. Que ternura de poema!
    No “multiversos” esta observação me intrigou: (revisto e reeditado doutro m/blog, pouco visitado). Acaso tens/tiveste um outro blog? Também notei que é um texto originado em Outubro/15. Curiosidades apenas, meu amigo, nada que impeça uma admiração pela reflexão tão profundamente bela, doída, que a postagem encerra.
    “a vida não é passado, a vida não é futuro
    a vida é presente
    sei que ela passou por mim
    mas não sei se houve vida por dentro de mim”.
    Esta sensação de que a vida passou por nós e não estávamos mergulhados nela, é justamente a parte que mais dói, pois nos sentimos apenas expectadores dos acontecimentos. E o sentimento que se nos chega de saber se existimos ou não, se vivenciamos as situações ou não, se estávamos presentes ou não... Ah, meu amigo, acredito que isto se dê quando nos são adversas as situações vivenciadas. É como se nos negássemos a crer que aquilo aconteceu conosco, isolamos a imagem, fazemo-nos assistentes apenas, esperando que o vazio se preencha na nossa consciência. Alheados ficamos, mas lá no íntimo alguma coisa se move, uma voz que quer se manifestar, um gesto que se quer fazer, até para sentir que não estamos “confinados ao espaço-tempo”, que “para além do mar” existe “uma paisagem a desabrochar”...
    E a sensação de nunca termos chegado por nunca havermos partido, de que ficamos/estamos parados no tempo, na vida, no espaço, torna-se apenas uma sensação, porque estamos sempre partindo, sempre chegando, refazendo passos, empreendendo outros, porque a vida assim nos exige e nos envolve, devolve, enreda, em todos os seus movimentos... Porque somos sim, únicos em nossa vivência, e é a vida quem nos afirma isto, a pretensão não é nossa, e por sentir que todo ser vivente tem na sua essência um pouco de poesia, é que acredito nas palavras de um grande cineasta: “A poesia é a verdade disponível a todos. Somos todos poetas”.
    Sim, amigo, tu és único, mas podes dizer que dentro de ti “há multiversos”, porque trazes na alma o dom da criação e é dela que te chega a excelência da tua Poesia.
    E quando o verdadeiro verão chegar, pegue o seu amor pela mão e vão juntos à praia colocar não apenas dois, mas todos os sorrisos que estarão, com certeza, a lhes enfeitar o semblante.

    Amigo Luis, desculpe ter passeado pelas postagens que ainda não tinha visto, mas foi a forma que encontrei, não apenas de agradecer por estares sempre lá no meu refúgio, mas também para “fugir” deste “pequeno homem” a quem dirigiste tão excelente carta aberta, com verdades que envergonham “os grandes homens”.
    De tudo que li deste magnífico protesto, a conclusão a que chegamos, tu bem expressaste neste parágrafo:
    “Só que de si, o que saiu foram palavra de merda, tão mal-cheirosas na aversão e cinismo com que as pronunciou.”
    Que te cheguem sorrisos e estrelas no caminhar das horas que se seguem...
    Meu carinho num beijo,
    Helena

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  3. Luís, meu caro amigo

    que nunca a voz te doa, porque a palavra nunca te faltará!

    um texto de antologia! cada palavra é dinamite pura
    pólvora seca, enfim, pois ninguém te escutará (nem a ti, nem ao António Costa)
    em qualquer caso "desopilaste" o fígado!

    e esse "servicinho" higiénico já o gajo te prestou
    nos prestou.

    caloroso abraço

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  4. Fantástico, Luís. A arrogância desse "pequeno homem" é demasiada. Preconceituoso, xenófobo, sexista e reaccionário. E o pior é que não sabe reconhecer que agiu mal e, como muitos daqueles enfatuados, acha-se o maior...
    Uma boa semana. Um beijo.

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