domingo, 25 de dezembro de 2016

na mesa do café


DOMINGO, 28 DE AGOSTO DE 2016


na mesa do café

todas as manhãs são manhãs de acolhimento
na mesa do café há sempre um qualquer momento
em que a vida encontra a essência do existir.

trocam-se conversas, comuns a alguns
e as cadeiras, testemunhas silenciosas,
suportam, estóicamente, o peso dos anos, de cada um
mas há, por vezes, almas solitárias
em que só os seus pensamentos
servem de companhia.

hora de almoço, e na mesa ao lado
senta-se a eternidade
corpo delgado, cabelo pintado com raízes brancas da idade
saia pelissada e blusa de outras eras
sem aneis ou alianças
de oculos de leitura, em massa, sobre o jornal das desgraças
come uma torrada, bebe um galão
e tem brincos pendurados, a condizer com a cor das rouxas flores estampadas
na frescura de tantos verões.
acende um cigarro e eu sinto-me mal por espiar.

deixo-a com as costas direitas,
na frágil fragância, da vida ainda com esperança.

lmc

24/12/2016

Porém, passados estes dias e meses , volto a encontrá-la noutra esplanada  e,
sem quê nem p'ra quê, e sem eu dar por nada, eis que a vida dela comigo veio ter...

O tempo decorria suave e aprazível, com as horas a despertarem o apetite do almoço.

Absorvido que estava, na leitura de jornais pelo smartphone, ainda vagamente a oiço, numa conversa ao telemóvel, em inglês.

Acabada a conversa dela e uma pausa minha na leitura, os nossos olhos encontraram um diálogo de ternura.

E foi ao responder a uma observação sobre os maus tratos a animais, que o nosso diálogo começou...

Não vou aqui transcrever nada do tudo que fiquei a saber, nem isso seria correcto.

O que poderei dizer é que, em cada ser humano, há todo um mundo acumulado de vivência e saber...
há um querer e um crer; há uma vida que a outras acabou por acrescer;
há raízes com estórias por dentro, recheadas do seu tempo; e esse tempo foi outro, foi um tempo que só nos livros constam, onde já não existe quem os possa narrar.
São pedaços espalhados, e que por vezes acabamos por "ler".

A nossa conversa deambulou por gerações (nossas) pós I Guerra e Mundial e locais como África, Madeira, EUA, e Portugal Continental  e por onde andaram, viveram e criaram. .

Ficou, assim, viva para nós dois mais um pouco de memória, que a poeira do tempo teima em tapar...
até alguém perto de nós chegar.

(conto de natal...sem nada em especial)

4 comentários:

  1. Vim apenas para um abraço natalício. Voltarei para ler.

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  2. Não existe nada mais especial do que as pessoas que têm
    "raízes com estórias por dentro", meu Amigo.

    Grata (sempre) pela leitura preciosa aqui!

    Meus votos de um domingo de natal harmonioso
    e uma semana a iniciar com a preciosidade
    da vida neste teu coração especial de Poeta.
    Um beijo e abraço de paz!

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  3. Luis, meu querido amigo: somente agora, passada a época natalina, estou tendo a oportunidade de visitar os amigos. Tu chegaste há pouco no meu espaço, mas já tenho por ti muita consideração. Desculpe não ter vindo mais vezes te visitar, mas este período que antecede o Natal me chega com muitas incumbências, e muitas vezes o desejo de 'estar' na casa das pessoas queridas torna-se quase impossível.
    Um belo 'conto de Natal', com nuances que há de se adivinhar, imagens que devem ser decifradas, enigmas a serem desvendados... Tudo isto num encontro onde ficou para os dois "mais um pouco de memória, que a poeira do tempo teima em tapar..."
    Flutua uma certa magia na "mesa de café", por existir sempre "um qualquer momento em que a vida encontra a essência do existir". E tudo se prolonga na "hora de almoço" porque "em cada ser humano, há todo um mundo acumulado de vivência e saber... há um querer e um crer; há uma vida que a outras acabou por acrescer; há raízes com estórias por dentro, recheadas do seu tempo; e esse tempo foi outro, foi um tempo que só nos livros constam, onde já não existe quem os possa narrar".
    São pedaços espalhados e que o Poeta vem nos ofertar em doces versos!
    Meu querido, te lembras da sugestão que me deste de mudar a cor de fundo do meu blog? E eu te respondi que o faria quando também mudasse as cores do meu interior... Acredito que tais cores se tornaram mais alegres no decorrer desta época natalina, quando me conscientizei de que estaria homenageando o meu companheiro, onde ele estivesse, se prosseguisse com mais fé e esperança na vida.
    Posso dizer que foram as crianças e os idosos que, ao viverem a alegria do Natal na lembrança do Menino Jesus, fizeram chegar ao meu coração a certeza de que ainda tenho uma missão para cumprir.
    E assim, revestida da mais tenra esperança, resolvi seguir a direção que minha alma 'advinha' ser aquela que o Pai me destinou.
    Quando tiveres um tempinho, dá uma chegada por lá e espero que se expresse com a mesma sinceridade com que me deu a sugestão. Só tenho a te agradecer, meu amigo!
    Que 2017 seja o teu melhor ano, aquele em que a tua memória há de registrar como uma graça alcançada por um projeto há muito acalentado.
    Meu carinho nas estrelas e nos sorrisos que deixo espalhados no teu cantinho.
    Helena

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  4. a poesia é assim: brota com naturalidade dos dedos que a colhem..
    ela a Poesia anda por aí nas esplanadas... e nos cafés.

    Luis, meu caro amigo

    humaníssima a dor que em ti fala.

    caloroso abraço

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