sábado, 12 de novembro de 2016

Undine/ou tinha de ser assim...


Undine_Arthur Rackham
(amor de então ou ondas de paixão)

tanto mar, tanto mar
a nos separar...
e o teu nome nos lábios
ondina, sempre a bailar.

era o tempo a cacimbar
tempo de prece no olhar...
à espera do milagre
que tardava em chegar.

veio, qual deusa
mitológica
rolando a beleza
p'ra desassossegar.

cada noite estendida
riscava o seu nome
desenhado em esboço.
sonhado que era
o sonho de tê-la
comigo escondida.

quase via os beijos
com outro trocados
no quintal ao lado
do lado errado.

imaginava as ondas
gigantes de paixão
essa rebentação
que me encharcava
no ciúme do leito
de muralha feito.

eram noites sentidas
mas ao outro dia
ao vê-la, lavava as feridas.

os anos passaram ...
e os putos que éramos
marcados ficaram.

declarei-lhe amor
antigo de então e
sempre renovado
pois com o meu amigo
tudo tinha acabado.
(foi só aquele verão)

falei-lhe do meu ódio
ao robert redford
por o meu vizinho
(esse amigo zé)
ser-lhe tão parecido.

e ela respondeu-me:

- porquê não me disseste
que gostavas de mim?

(que importava agora, se o mar era chão ... )


3 comentários:

  1. "que importava agora, se o mar era chão ..." Que maravilha, quando a tristeza pode ser um barco ou apenas a lua cheia...
    Uma boa semana.
    Beijos.

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  2. Uma ode a um amor de outrora, um amor que, de adolescente, se fez adulto. Embora não consumado, foi (é) forte e enraizado. "O mar chão" importa sim, poeta, Porque, sendo chão, permite um mergulho sem receio das marés fortes...

    Um poema doce e nostálgico com cheiros de maresia e sereias sonhadas.
    Boa semana.

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  3. Um poema com a narrativa do amor silencioso em ondas
    de paixão e quando declarado,já era apenas em memória
    a se inscrever poesia...

    A imagem muito bela em harmonia com o poema, Luís.

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