terça-feira, 15 de novembro de 2016

ensaio sobre o vazio

foto Luís

(poema de caminho livre)

ensaio sobre o vazio

é tarde, amor
não venhas de passos rasos
a varrer a ausência das sombras
e olhar meus olhos sem os ver.

abre-me, antes, a madrugada
com chaves de ouro, filtrada
nas cortinas da esperança.

no meu leito estendi as mais
caras mantas de cetim
para deitares as nuvens
do meu ciúme sem fim.

acalma-me esta angústia
destilada e não me deixes
beber tão acre dor.

o dia promete ser lento
e caminhar por alamedas
de intensos odores.


e se quiseres voltar
vem-me buscar

vem e abre-me as pálpebras
seladas, com teus beijos
na húmida lembrança
na suave carícia
da pétala orvalhada pela brisa
do amor
imaginário ou real.

hoje espero-te como nunca te esperei
se é que algum dia por ti esperei
talvez tenha só sido o desejo de querer ter sido...

não tenho certeza de nada e
nada, nada chega a ser
o que tanto queria ter
a ti
como se o universo fosses tu
no vazio que há em mim.

é tarde, amor
mas cedo se torna
ao que nunca existiu.

e o tempo está a meu favor
o tempo e o espaço, coisas
que não me faltam
e a espera é um lugar
onde ninguém se quer sentar
por isso está vago
só eu sou candidato
só eu e mais a minha sombra.

e se não for tarde, amor
e cedo também
tras-me o primeiro beijo
para poder recomeçar
... ou a ti inventar.

8 comentários:

  1. (in)humano tal vazio.
    gostei mesmo - muito.

    abraço

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. na pele...na noite passada.
      saiu...
      que bom ter gostado.

      (à sua att: ainda não tenho acesso aos comentários, no seu blog, apesar de ser seguidor

      Eliminar
  2. comentário a: "Que Mais Importa ao Poeta?"

    "[...]E no entanto em teus olhos
    Bebo o fruto cristalino das árvores inventadas
    Antigas montanhas debruçadas sobre o vento
    O sopro dos dias nas mãos abertas
    Em generosa dádiva...[...]

    - que mais o poeta pode desejar?
    subi à montanha...e gostei muito do que senti.

    um abraço.

    ResponderEliminar
  3. A poesia a tecer lembranças no vazio, a preencher lacunas já desfeitas, a fomentar saudades já esquecidas... Uma poesia que me chegou prenhe de espaços a serem preenchidos entre dores, amores, sofreres, conjuntos que se formam na existência de quem, entre sombras doídas, tenta versejar ausências...
    Vim agradecer a tua visita ao meu espaço e conhecer o teu. Tua forma de poetar muito me agrada, nestes versos que entrelaçam emoções e sentimentos de cunhos diversos, que muitas vezes acobertam os sentidos e expõe imagens que se querem vivas, a lutar ainda por um pouco de sol, de ar, de luz...
    “não tenho certeza de nada e
    nada, nada chega a ser
    o que tanto queria ter
    a ti
    como se o universo fosses tu
    no vazio que há em mim.”

    Também a apreciar LISBOA, essa cidade que encanta e seduz, que acolhe em braços-mãe a quem seu solo toca...
    “É teu o sonho
    no achamento
    acolhedor
    de outros povos.”

    Muito ainda a visitar por aqui, e o farei com um tempo maior.
    Por agora, resta dizer que gostei muito do teu blog, da tua forma de versejar.

    Quanto à mudança de cor sugerida, irei fazê-lo num tempo certo... As cores dos meus espaços são criados de acordo com as emoções e sentimentos que estão a me reger. Já os tive em cores de azul, verde, lilás, rosa... Estas cores alegres como pano de fundo das minhas mais gratas recordações e vivências. Hoje, utilizo o negro como reflexo das tristezas, das dores e saudades que fazem parte do meu caminhar. Nas postagens eu busco deixar no colorido uma forma de me (re)encontrar... Quando o fizer, prometo, a cor negra há de ser mudada...

    Luís, gradeço de coração esta tua observação. Foi-me tão preciosa que talvez eu possa clarear um pouco o fundo do blog. Vamos ver!

    Que te cheguem horas de alegria para preencher teus dias de paz e realizações.
    Com carinho,
    Helena

    ResponderEliminar
  4. Belíssimo, a expressividade deste seu poema: o título,
    o conteúdo, a estrutura estética junto com a foto,
    uma composição de arte encantadora.
    Há no poema uma profundidade filosófica com o sentir
    amoroso, quase um brincar das palavras (leveza...) no
    mergulho nesta profundidade...
    Aprecie muito!!
    Abraço, Poeta.

    Ps: Aprecio e sou fã da poética e literatura
    admirável do meu amigo poeta Manuel Veiga!...

    ResponderEliminar
  5. Um vazio prenhe de memórias, de desejos e anseios. Um vazio que, de vazio, nada tem:antes está repleto de desejos, de amor vivido e recriado nas mais pequenas partículas do sonho e da claridade das madrugadas.
    Um vazio tão cheio! Tão imensamente repleto de uma alma saudosa.

    Belo, mesmo na espera onde ninguém vem habitar, nem se quer sentar. Atrevo-me eu a sentar e esperar por mais poesia assim...
    Luar

    ResponderEliminar
  6. Nunca é tarde para a "invenção do amor"

    ResponderEliminar
  7. O vazio? Não. É o consentido rumor ao alcance dos sentidos, em violento querer. É o pressentimento do amor a desafiar todos os equívocos...
    Demorei a ler o poema. Agarrou-se-me à pele.
    Uma boa semana.
    Beijos, meu Amigo.

    ResponderEliminar