sábado, 1 de outubro de 2016

beijos amargos

(porque os tempos mudam mas as mentalidades perduram...)

os tempos mudaram e às mulheres
já os beijos não são só roubados;
são sequestrados ou assassinados, 
outras vezes em cacos estilhaçados 

às mulheres já não se bate só com uma flor,
bate-se com o ferro de engomar,
de qualquer jeito, com o que estiver à mão...

quem é que a mandou amar;
de quem é a culpa de ter filhos;
ter de trabalhar, em casa e... por aí fora;
de andar cansada de tanto transporte; e
tantas horas perdidas, no corpo sentidas...?

quem tem de aturar o chefe;
homem, pois claro, que passa a vida a espreitar as oportunidades; e a ver se pesca em águas paradas?

quem tem de contar o magro salário, chegar ao fim do mês e pouco dever?

quem tem medo de perder o emprego por ter nova gravidez?

- ai se descobrem, vou p'ro meio da rua! 

- e logo agora, com esta "sorte" de marido, tanto tempo desempregado,
aos caídos, já sem subsídio?

- e tem sido tão difícil aturá-lo...

- agora dá-lhe p'ra beber, 
não sei onde vai arranjar o dinheiro,
más companhias, lá isso ele tem...
mas se o deixo, vai atrás de mim
até ao inferno  - como se eu não vivesse já no inferno -, 
e tudo pode acontecer...!

- mas que triste sina a minha;

a minha mãe é que tem culpa disto tudo:
pariu-me e fui atirada para esta vida,
sem poder escolher;

- agora, que futuro poderei deixar aos meus filhos?

- olhos-os e revejo-me neles, como me revejo na pobreza que sempre me acompanhou;

- cresci no meio de tantos irmãos, 
alguns foram ficando pelo caminho,
que a fome era uma barreira;

- hoje desabafo, melhor..., hoje grito,
porque no peito dorido nada mais há.

nem as telenovelas e o raio que os parta já me servem de consolação,
onde é que eu tenho tempo p'ra me sentar?

- deito-me p'ra descansar, 
mas a noite também é um pesadelo!

parada
 entre sombras
 na curva da estrada
 aguarda 
 por quem não chegará.


3 comentários:

  1. Nem tenho palavras, amigo, para comentar este seu poema. Fala de uma realidade tão dura para as mulheres que magoa mesmo. Quantas vestem de coragem a sua solidão e o seu cansaço. Mas até quando? Nada lhes é gratuito, nem o desespero. E morrem por cada sonho e voltam a nascer por qualquer esperança...
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  2. Pelo sonho é que vamos

    em todos os apeadeiros

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  3. Olá Luís,

    Um excelente poema de intervenção-denúncia de
    uma realidade cruel, que violenta o corpo e a alma
    da mulher, quando não a mata literalmente, mas
    antes morrem todos os sonhos numa realidade desta...

    Grata pela sua gentil visita e comentário e
    também com a sua visita a oportunidade
    de conhecer o seu espaço de arte poética.

    Apreciei muito!

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