sábado, 28 de maio de 2016

Olhos que não se vêem

- dedicado ao escritor angolano, Pepetela,
e inspirado numa entrevista que ele deu
à revista "Visão" -

foto_net
Menino dos olhos negros
Tão negros como carvão
Marejas a dor sofrida
Da rua que não dá pão.

- e a esperança toda perdida -

Menino dos olhos negros
Com cobertor de luar
Corres a noite estrelada
Com as mãos a abanar.

- e a fome é a única estrada -

Menino de olhos negros
Tão negros como carvão
Snifas durante todo o dia
A gasolina da perdição.

- e o petróleo escorre outra via -

Menino dos olhos negros
Quem te deu tal destino?
Deitas-te sobre a calçada
Com lençóis de desatino.

- e a rua tão esburacada -

Menino dos olhos negros
Tão negros como carvão
Entre a mutamba e a baía
Tens a tua cama no chão.

- e a cidade alta nunca a teria -

Menino...
Não és menino, não
A tua existência é ferida
Na consciência duma nação.

- e a marginal esconde esta vida -



1 comentário:

  1. Muito sentido este poema ao "menino dos olhos negros" mas que abrange todos os meninos desprotegidos para quem a vida é tão marginal que nos magoa e é de facto
    "uma ferida na consciência duma nação". Um excelente poema, meu amigo.
    Um beijo.

    ResponderEliminar