terça-feira, 31 de maio de 2016

mãe-áfrica





foto_luízM


logo pela manhã varres a terra 
batida em frente à cubata
com as costas dobradas por anos de lavra.
o vento da noite trouxe as folhas sêcas
como sêca é agora a tua pele.

os teus olhos, já cansados, ainda vêem 
a manhã desperta.

ainda deslumbram o caminho 
que aqui te trouxe e daqui te levará.

sonhas o dia, como outro dia, um dia mais
dentro de tantos que são demais.

o trabalho, os filhos e os netos 
são as certezas que encaras como belezas
sem tempo para pensares as tuas tristezas.

os anos passaram depressa demais e 
dentro do teu mundo, foi só um raio de olhar.
fugazmente, vem-te a lembrança dos teus pais
quando criança, e eras feliz.

hoje terás momentos...
um cigarro de chama na boca
a viajem, a outros tempos, neste lugar...
este mesmo lugar que contigo habita.

muita coisa mudou, desde então, mas
só por fora de ti pouco ou nada mudou
à volta, só mais umas quantas cubatas
num quimbo que pouco cresceu.

décadas e décadas passaram mas
parece que, presas a ti, ficaram.

o rio é o mesmo, nas cheias e nas secas
a chuva aparece e desaparece em momentos 
inesperados, que ninguém esquece
moscas e mosquitos parecem iguais
a outros, em todos os dias, sendo demais.

o trabalho que dá para tudo ser igual...

dia após dia, ano após ano, tu esperaste...sentada
ou dobrada, a trabalhar ou a descansar
a dormir ou acordada, solteira ou amigada (casada)
sózinha ou acompanhada. 

... outras vieram ocupar o teu lugar
na juventude que não mais tens.

os filhos e netos que às costas
carregastes enquanto lavravas, essas outras, hão-de carregar os seus, também.

esperaste...

uma viagem de canoa, rio abaixo 
uma braçada a terras distantes 
mas tão perto caminho que ora fitas 
comprido do teu destino não cumprido.

esperaste, pelo sonho de princesa 
quando era linda a luz e a lua reflectia a tua beleza.

esperaste, por aquele dia onde 
o trabalho não doeria, onde as manhãs 
fossem jardins de sol, onde a imaginação
não era ilusão.

como o calor da picada libertado em tarde de verão.

a noite chegou e a noite tráz mistérios
nas sombras das poucas árvores
projectadas.

são fantasmas que contigo brincam
em sussurrantes alvoradas.

e aqui ficaste... presa ao tempo
presa ao espaço, presa ao sonho
e ao cansaço.

hoje recordo-te como a mais bela paisagem
a mais adorada imagem, numa áfrica menina 
...e sempre felina.

3 comentários:

  1. África com as suas gentes, as suas paisagens, o seu destino cansado, os seu sonhos adiados, tudo aqui, urdido num poema fantástico. Parabéns, amigo. Li e reli.
    Um beijo.

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  2. Fui ouvir a Fadista Teresa Tarouca no seu blog "planeta orbital".
    Em alguns casos o nosso país ainda é assim triste e desolado. Evoluímos em muitas coisas é certo, mas há pessoas a quem a vida continua a magoar tanto.
    Também vi que tinha um poema meu, o único que escrevi para o meu pai...
    Obrigada pelo carinho.
    Beijos.

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  3. Obrigada pelo carinho das suas palavras. Quando actualizar eu volto...
    Beijos.

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