quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Equador

Paquete "Quanza"

I

Era um navio, um quase barco a vapor
nele, a criança cruzava a linha do equador 
o "Quanza", velho, num lento navegar, 
e como guias, os golfinhos a acompanhar
além de prateados peixes-voadores a saltitar.

E o menino, deitado no convés, contemplava, 
pelo orifício da âncora, entre o passar das horas,
do ar e do mar, aqueles seres, que tanto o alegrava.

Sem solidão, deles tornar-se-ia seu irmão! 


foto: luís castanheira
II

Um chão de mar estendido ao olhar
e o "Quanza" a lamentar o seu vagar
esse  navio, quase barco  a vapor
ao meio-dia, a travessia da linha do equador


e os olhos de mudança, na criança
que à proa, entre a aberta da âncora
deitada, debruçada, espreitava
os  golfinhos, lado a lado a acompanhar 
a quilha no seu lento e suave navegar.

Como era belo o sonho na descoberta
da liberdade entre a inocência e a coberta
e uma terra lá, ainda longe, à espera como meta.


III

Um chão de mar estendido ao olhar
e o "Quanza" a lamentar o seu vagar
os olhos de criança no rumo da mudança 
desse  navio, um quase barco  a vapor
na travessia, do meio-dia, e  equador
o reflexo do sol na água em bonança

O céu azul, linha de costa à vista e calor
horas passadas, deslumbradas de amor
silhueta deitada, debruçada, a espreitar
os  golfinhos, lado a lado a acompanhar 
a quilha no seu lento e suave navegar
lavrando as águas dum chão por achar

Os peixes-voadores, em cardume, a saltar
- o inconformismo da solidão em tanto mar -
amigos que eles foram em longas horas
exibindo a perícia incansável dali estar
entre o meio de mergulhar e respirar

... e todo o mundo era feito e perfeito
nada por dentro deformava esse jeito
e por fora o oceano prateado a cantar
o céu que se dava a essa doçura de luz
onde menino a vida sempre seduz
e o silêncio sussurrado desses seres a falar


Como era belo o sonho na descoberta
da liberdade entre a inocência e a coberta
e a terra lá, ainda longe, à espera como meta
e essa memória de viagem foi guardada
como um coração guarda dentro do peito
a esperança que não se esqueça do seu feito:


- o sonho construído do momento,
   ver a vida da vida que alimenta!

1 comentário:

  1. Sou o menino. Vou no "Quanza" à procura de "um chão de mar estendido ao olhar".
    Belíssimo poema, amigo.
    Beijo.

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