quinta-feira, 10 de julho de 2014

(cais das colunas)

(cais das colunas)
Cais das Colunas_Lisboa

Tanta burocracia e só a água escolhe o caminho mais fácil
A cinco metros ela é turva onde começa a margem e acaba o esgoto
Cidade grande para um rio tão pequeno
Mas lá bem no meio a água é dum azul pálido dos seus desgostos
Há uma cadeira uma mesa e uma sombra
Há uma paisagem uma brisa e um cigarro
Há uma cerveja um relógio e o meu amor à minha espera
E no entanto há um vazio...
Mas há no meu sangue a esperança desse rio 
Há um lugar que está marcado num nosso encontro
Há o amor há a vida e há a corrente do pensamento que galga 
cristas de ondas grandes que chocam com outras feitas por hélices
Há movimento e contudo eu estou parado
parado naquele dia em que aqui estivemos
Voltei no tempo e parece tudo igual a ontem
O mesmo rio com aspirações a mar
A mesma grade a limitar
Que as crianças aprendam cedo
Que há um salto possível de dar
Quando o desgosto sendo adulto pode provocar
Mas há uma ponte para os cépticos
E nem mesmo um Cristo de braços abertos
Os pode salvar quando se altera este equilíbrio
Braços pequenos para tanta gente
Gente que vai para não sei onde…
Gente que vem de onde eu não sei
Há qualquer coisa que eu queria ser
E é à procura desse saber
Que eu venho para aqui tentar sonhar
O que as pessoas hão-de fazer
Para descobrir uma forma de ser.

(quando as horas passam e se aproximam das dezanove
 Sonho de um rio à beira-mar numa cidade
 com muita merda mas linda vista do cais)


LM_Lisboa, 30.jul.1976 (muita coisa mudou desde então...)

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