domingo, 8 de junho de 2014

Baile da solidão


Eh, fadista deste fado de bela vista
Tens a glória deste momento na velha pista
E no andar e no falar, estás p’ra amar
És um ‘pintas’ no gesto e no trajar,
Em boas fintas rodeias tudo com o olhar

Sentes o corpo em palavras a sussurrar.

Eh, fadista marialva feito Midas
Faroleias as viúvas mais queridas
Cantas estrofes de tabernas e cafés
Conversas de tretas e parlapiés.
E a troco de nada debitas lamirés.

Pois é, fazes-te à vida, alma ferida.

Pesam-te os anos e os enganos,
E a brilhantina escorre os cabelos
Já grisalhos, mas bom de vê-los
Calças de ‘jeanes’, camisa às cores
Dum amarelo berrante de dores
Um lenço preto escorrido e com flores
Sapatos rasos e deslizantes de alto brilho
E no pescoço, pouco escondido, dourado fio
Como o relógio, a bracelete e a pulseira
Dão à figura um marialva de cabeleira.

Fins-de-semana nas danças de salão

Espalhadas um pouco por toda a parte
Esse condão ‘engatatão´ da tua arte
Encobrindo palidamente a solidão.

Solto o salão aí vais tu dando uma mão

Lanças amores, pedes favores, apertas dores
Puxas pró tango várias estampas
De outros tempos e outras pampas
Ora dançantes, ora sentadas e alinhadas
O rouge intenso e baton vivo põe-nas coradas.

És bailarino, exímio, na escola de outras eras

Onde as horas não eram de tantas esperas
Ficou-te o ‘bicho’ enraizado dum pé de dança
Em qualquer baile, ou mera festa, desde criança

Mas esqueceste que tudo é feito de mudança

E agora trazes nos olhos a já pouca esperança.

Dás a perninha em qualquer baile

Rasgando o espaço desse cansaço
Saltas sem rede e avanças a cada passo
És uma estrada escura sem qualquer raill .

Nos intervalos bebes geladas umas ‘begecas’

E até pensas que vai ser fácil dar umas ‘quecas’
Lembras as noites e os bailaricos de S. João
O vinho verde a madurar sardinha e pão.

As matines, já não em boites ou cabarés,

São estas voltas uma constante troca de pés.
Repimpas firme uma silhueta de juventude
Lembrando os verdes anos muito amiúde

Na música ao vivo, soalho antigo, e já comido

E o jantar fica perdido e ouvido algo entupido.
Lá dás o corpo ao manifesto e sem protesto
És suave sombra a envolver o corpo delas
Mas ao deitar é que são elas.
Perdes as velas.
Dói-te a alma, os cansados pés e as costelas
Vês-te em alto-mar, num barco a naufragar
Sempre picado, sem sentinelas p’ra te acordar
Os pesadelos, tristes flagelos, dormem contigo
Feito peão deste destino bem à medida da solidão.

E, mais uma vez, dormes sozinho, como um mendigo …


LM_26/28.jun.2013



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